O rei dos instrumentos foi abençoado e inaugurado no dia 29 de junho de 1962 no coro, à porta da Igreja pelo então Arcebispo Dom Alberto G. Ramos. Foi construído por Edmond Bohn, organeiro e proprietário da fábrica na cidade gaúcha, Novo Hamburgo. Bohn era alemão e usou técnica alemã na fabricação. O órgão é pneumático e não de tração mecânica como o da Catedral.
No local, permaneceu durante vinte anos. No mesmo dia 29 de junho do ano de 1982 o técnico da Sildevani, Sildon Scherer e dois outros o colocaram junto ao altar. Vinte anos foram suficientes para a quase destruição do instrumento, pois atacado por cupins e punilias. Uma desolação.
A campanha para a restauração foi meritória e eu através dos meios de comunicação elucidei os fiéis, para colaborarem. É preciso frisar que o local do órgão é junto ao altar. O órgão deverá acompanhar o coral e o lugar do coral é também junto ao altar. Visitando-se as grandes Basílicas e Catedrais e também mosteiros percebe-se o coro atrás do altar-mor. Com a decadência da música sacra nas igrejas católicas, colocaram o órgão encimando a porta de entrada do templo. A decadência da música se acentuou até o basta do Papa Pio X, quando para toda a igreja, proclamou seu “motu proprio".
Sant’Ana, já disse, foi a minha primeira paróquia e eu padre novo na época não me havia aprofundado na liturgia da Igreja. Ordenado sacerdote fui designado a trabalhar no seminário. Com a descida do órgão todas as manhãs após o café, nele eu me sentava para executar. A igreja, localizada no centro do comércio era muito visitada e às vezes olhava as naves e me espantava. Ela ficava repleta de fiéis. Sant’Ana foi um sonho para mim... O Walter, organista amazonense, nas horas vagas, executava músicas do momento. Nilo Franco em uma de suas crônicas escreveu: “Nunca vi tanta gente ajoelhada para ouvir Roberta”. Roberta era a música da moda.
São estas as características do órgão de Sant’Ana: 08 registros sonoros, 07 registros auxiliares, 02 teclados com 27 teclas, 01 pedal crescendo, 01 pedal gelozia, 03 combinações fixas, 1003 tubos entre flautados e metálicos. O manuseio do órgão não é muito fácil e seu mecanismo é complicado. O motor silencioso do órgão foi colocado na sala do expediente à Rua Manoel Barata.
O referido motor movimenta os foles – outrora o processo era manual. A profissão de foleiro desapareceu com o uso da eletricidade. Grandes tubos e também outros capilares conduzem dos foles o ar comprimido por chapas de ferro para o someiro ou reservatório ligado à centenas de pequenos canais terminados nas válvulas chamadas sopapos. Elas são revertidas com pele de carneiro e facilmente poderão se deteriorar. Requerem-se técnicas para amaciá-las. O organista ao ferir a tecla faz abrir as válvulas impulsionando o ar e assim os lingotes vibram produzindo variedade de sons e de timbres nos tubos de vários formatos. O leitor a esta altura terá percebido que o mecanismo é complicado e requer mão-de-obra especializada semi-artesanal.
Um curioso não poderá pretender restaurar órgãos. Quando Guy Bouet, organeiro suíço visitou o órgão da Catedral disse-me: “Padre, cuidado com esta preciosidade. Evite intervenções curiosas, pois poderão destruí-lo. Retirou o timbre Cavaille Cóll para eu guardar. Foi o que fiz. A primeira iniciativa para restaurá-lo foi infrutífera. Cheguei a fazer pedido de dispensa de imposto, ao então Presidente José Sarney em Brasília. Ele não me atendeu. Finalmente a segunda iniciativa teve êxito e o órgão da Sé voltou a funcionar depois de verdadeira “via crucis”. Devo por justiça mencionar dois ilustres personagens: Marco Marcelino e Dr. Hélio Gueiros, então prefeito municipal. O povo, em geral, ajudou muito e os meios da comunicação facilitaram a campanha.
Esta crônica eu a escrevo para focalizar a gravidade do assunto. Foi um crime imperdoável deixarem estragar o órgão de Sant’Ana. De dois em dois anos, o instrumento era revisado em parceria com o pároco da Basílica, padre Machado. Nós nos revezávamos nos custeios das passagens e hospedagens para os técnicos. Eu não qualifico de burrice, por respeito ao leitor terem colocado o órgão de Sant’Ana encimando a porta de entrada do templo. Esta colocação fere a liturgia da Igreja e motiva deterioração rápida do instrumento neste clima quente e úmido da cidade de Belém. Tudo se vê neste mundo e nesta distante Amazônia.
Um comentário:
Mons Nelson
Quanto à localização do órgão junto ao altar, esta também foi feita na Igreja Católica de Três Coroas/RS, pelo Pe Ari Antonio da Silva no ano de 1989. Muitas críticas foram feitas, devido a não-aceitação dessa realidade litúrgica que estava se fazendo presente.
Tanto é, que cerca de 5 anos depois, o pároco o moveu, sem nenhuma assistência técnica, para o lado direito da Igreja, onde ficou até 2006, vindo a ser desativado.
Marciane Faes
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