segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Os sinos da Sé II



O sino maior da Sé trincou ao ser balanceado para a Missa de Ação de Graças pela vitoria nas urnas como Prefeito Municipal de Belém o dileto amigo Said Xerfan. Espantei-me com o pressagio que depois se concretizou. Xerfan renunciou para candidatar-se governador do Estado na eleição seguinte. Perdeu. Muitos afirmaram que houve fraude, o que acontecia freqüente na contagem “voto a voto”. Eu não sei, só sei que o acontecimento funesto me afetou. O então SPHAN não permitiu que houvesse refundição, pois os sinos perderiam a identidade. Sobre isto eu já escrevi.
 Antes de lançar a campanha, eu pesquisei e muito, sobre sinos, consultei especialistas e até o Senhor Cardeal Dom Eugênio Sales, Arcebispo do Rio de Janeiro. Foi S. Emma. quem me indicou a Fundição Angeli. Fiz descer da torre todos eles, pois alguns tinham os cabeçotes apodrecidos. A descida foi fartamente noticiada e eu guardo cópia do que foi publicado.
O SPHAN por sua vez convocou de Brasília técnico, que ao chegar à Belém, logo no dia seguinte acompanhado do Superintendente regional e do Arcebispo foram à Catedral, Eu os recebi e os introduzi na minha sala mostrando-lhes peças de alfaias, pedindo ao técnico que selecionasse as originais das cópias. O referido técnico se “embananou todo”. Não perdi tempo e logo comecei a falar quando o Arcebispo pediu que eu ouvisse o técnico. Então virei - me a Dom Alberto: Excia., aqui estou nomeado por V. Excia. que neste momento poderá  anular a nomeação. Ele silenciou. Não lhes dei tempo, pois a esta altura  já  me havia certificado  que o  visitante não era técnico em sinos e sim como confessou depois, ser  técnico de soldar cascos de navio. Então eu falei pausadamente: Doutor, as ondas marítimas são muito diferentes das ondas sonoras... Não havendo clima, o encontro foi encerrado e ao saírem ele, o pseudo-técnico, voltou-se, bateu no meu ombro dizendo: Gostei da sua argumentação. Eu os deixei sozinhos... Aproveito o momento para afirmar em “alto e a bom som” que as repartições governamentais estão saturadas de políticos aproveitadores. Os terceirizados contratados não entendem de igrejas, de suas necessidades, de cânones e de liturgia. Tufam o peito arrotando autoridade, ameaçando de prisão como a mim fizeram várias vezes e projetando babilônias... Como prosseguiu a novela? Em uma madrugada, bem tranqüila, a porta central do templo se abriu e os sinos embarcaram diretamente à São Paulo. Viajaram todos embrulhados  nas peças  de fazendas compradas pela Catedral. Lá chegando, foram logo trabalhadas sem  alterações.  Inscrições e datas se conservaram.
Agora para terminar: Uma semana depois do embarque, sem eu esperar vi Dom Alberto e o Superintendente à porta da sala do expediente paroquial. Ao cumprimentar-lhes falou o Arcebispo: “O Dr. Superintendente quer visitar os sinos”. Os sinos á esta altura já haviam embarcado com a ordem do Arcebispo que só colocou uma condição: não lhe criar problemas. Não perdi a calma. Falei forte: O que? Ouvindo o que já ouvira antes continuei: Ora bolas! Eu tenho mais o que fazer. Virei às costas e saí rápido. Não sei dizer qual a reação dos dois.
Á hora do jantar, rumei ao Arcebispado para desculpar-me. Dom Alberto embora tímido, sempre teve uma cabeça privilegiada, falou-me: Você se saiu muito bem. Você não tem porque se desculpar.
    Meu leitor, escrevi este relato para dizer o que pessoas erradas fazem ao ocupar o lugar de competentes. O SPHAN ou o IPHAN como hoje é conhecido poderá ser muito útil ao Brasil e ao universal mundo cultural se entre eles  houvesse um mínimo de sensatez


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