quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Temida Realidade



Estas linhas eu as escrevo à propósito do meu primeiro ano de Hospital na Beneficente Portuguesa. O relato aconteceu na década de cinqüenta, gestão Sant’Ana.
Chamado fui para atender doente. O hospital situava-se no antigo Largo da Pólvora, hoje Praça da República. Era uma tarde calorenta, como são as tardes equatoriais de Belém, antes da chuva. Saí à pé, envergando minha batina preta  e de chapéu, conforme uso da época.
Quando a porta se abriu, deparei-me com uma senhora de cor, corpulenta. Ela estava envolvida em um lençol alvíssimo, muito limpo, mas daquele corpo, exalava insuportável odor. Senti-me mal, mas estava ali para sacramentar uma enferma em estado terminal. Ela estava lúcida. Observei o Ritual, sentindo o “ônus”  sacerdotal. O mal-estar continuou, sobretudo às refeições. Lembrava-me do escritor quinhentista, padre Manuel Bernardes ao escrever sobre carne. Relatou o desespero do animal ao pressentir o abate e a morte. A defesa é instintiva. Todo vivente tem instintos.
Agora atenção, meu leitor: o padre não se ordena para si, mas para atender e socorrer enfermos, carentes e necessitados. Disse Jesus: “Os de saúde não necessitam de médico”. O padre é médico de almas. O atendimento do médico não é fácil. Eu que por alguns instantes quase não suportei a exalação, nem me lembrei de que a paciente sentia a decomposição do próprio corpo. A realidade é trágica, temida e inexplicável. A natureza, que generosamente forneceu ao corpo o alimento, parece que, de repente se nega a ele e “dá um basta”. O corpo inconscientemente começa a definhar É o fastio. O Alimento não passa pela garganta. Sem alimento o corpo não sresiste e morre.
A morte é um enigma. Ninguém quer morrer. Todos a temem. A tragicidade aumenta porque ninguém fica esquecido.
Segue a reflexão final. O tempo é rápido, é fugaz. Mergulhados no tempo vive-se como se eterno ele o fosse. No silêncio inevitável desse instante, turbulências poderão acontecer. E elas são de ordem social, econômica, familiar e até espirituais. Narram que o nobre Mazzarino convulsamente se agarrava aos pertences e ás jóias  dizendo que tudo iria deixar. Dom frei Vital, ao escarrar disse;” Foi veneno mesmo”.  E o colega Dirceu agarrado aos pais gritava: “Não quero morrer!” e assim morreu.
Meu leitor, no silêncio inevitável que antecede a morte, o cristão deve entregar-se nas mãos de Deus e com espírito de fé, receberá a graça de bem morrer

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