Estas
linhas eu as escrevo à propósito do meu primeiro ano de Hospital na Beneficente
Portuguesa. O relato aconteceu na década de cinqüenta, gestão Sant’Ana.
Chamado
fui para atender doente. O hospital situava-se no antigo Largo da Pólvora, hoje
Praça da República. Era uma tarde calorenta, como são as tardes equatoriais de
Belém, antes da chuva. Saí à pé, envergando minha batina preta e de chapéu, conforme uso da época.
Quando
a porta se abriu, deparei-me com uma senhora de cor, corpulenta. Ela estava
envolvida em um lençol alvíssimo, muito limpo, mas daquele corpo, exalava
insuportável odor. Senti-me mal, mas estava ali para sacramentar uma enferma em
estado terminal. Ela estava lúcida. Observei o Ritual, sentindo o “ônus” sacerdotal. O mal-estar continuou, sobretudo
às refeições. Lembrava-me do escritor quinhentista, padre Manuel Bernardes ao
escrever sobre carne. Relatou o desespero do animal ao pressentir o abate e a
morte. A defesa é instintiva. Todo vivente tem instintos.
Agora
atenção, meu leitor: o padre não se ordena para si, mas para atender e socorrer
enfermos, carentes e necessitados. Disse Jesus: “Os de saúde não necessitam de
médico”. O padre é médico de almas. O atendimento do médico não é fácil. Eu que
por alguns instantes quase não suportei a exalação, nem me lembrei de que a
paciente sentia a decomposição do próprio corpo. A realidade é trágica, temida
e inexplicável. A natureza, que generosamente forneceu ao corpo o alimento,
parece que, de repente se nega a ele e “dá um basta”. O corpo inconscientemente
começa a definhar É o fastio. O Alimento não passa pela garganta. Sem alimento
o corpo não sresiste e morre.
A
morte é um enigma. Ninguém quer morrer. Todos a temem. A tragicidade aumenta
porque ninguém fica esquecido.
Segue
a reflexão final. O tempo é rápido, é fugaz. Mergulhados no tempo vive-se como
se eterno ele o fosse. No silêncio inevitável desse instante, turbulências poderão
acontecer. E elas são de ordem social, econômica, familiar e até espirituais. Narram
que o nobre Mazzarino convulsamente se agarrava aos pertences e ás jóias dizendo que tudo iria deixar. Dom frei Vital,
ao escarrar disse;” Foi veneno mesmo”. E
o colega Dirceu agarrado aos pais gritava: “Não quero morrer!” e assim morreu.
Meu
leitor, no silêncio inevitável que antecede a morte, o cristão deve entregar-se
nas mãos de Deus e com espírito de fé, receberá a graça de bem morrer
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