O jornalista Donato Cardoso de Souza, DD. presidente da APJ, enviou-me ofício comunicando que "por unanimidade de seu corpo associado-perpétuo, fora escolhido para membro benemérito do Silogeu, em reconhecimento aos serviços prestados à imprensa". O ofício continha nomes ilustres da diretoria, como Acyr Castro, Emanoel Ó de Almeida, Alfredo Coimbra, Francisco Sidou e Aldemir Feio.
Fiquei comovido com a escolha, principalmente pela unanimidade. Na verdade o que faço no campo jornalístico é aplicar o princípio do Papa Paulo VI, quando escreveu sua Encíclica "Inter Mirifica", afirmando que "o leitor tem o direito de ser bem informado".
Pelo ofício, eu poderia escolher para patrono o nome de um jornalista falecido, com exclusão dos mencionados na lista anexa.
Eu comecei a ler a lista e, ao terminar a leitura, logo me veio à lembrança o nome do jornalista João Malato.
Minhas primeiras ligações com João Malato tiveram início a quando da entrada de seu filho no Seminário. Todos os meses, ele pontualmente ia pagar a mensalidade. Conversávamos.
Ao chegar à igreja de Santana, onde permaneci durante 26 anos, polemicamos repetidas vezes pelo jornal "A Folha do Norte" e, mais tarde, em O LIBERAL.
Sempre admirei o estilo desse homem, estilo escoreito, impecável no frasear, exuberante e forte, contundente e sobretudo coerente aos seus princípios. "Cada cabeça, uma sentença". Seremos julgados um dia não pela cabeça dos outros, mas pela nossa cabeça. Neste aspecto, nos identificamos. No seminário eu fora ortodoxo rígido. Seminarista com batina e sempre com batina. Eu não os aceitava nem de guarda pó, nas horas do verão. Copiava D. Mário Vilas Boas, que só permitia batinas pretas nas horas quente do verão.
Depois convenci-me que a dignidade sacerdotal não poderia depender de vestes, mas do "caráter indelével" impresso no sacerdote no dia da ordenação. Em Santana, graças ao Pe. João Belizário Comaru, consegui alargar minhas idéias. Passei a ser olhado como "da linha de frente da Igreja". Chamaram-me padre progressista. Fui o primeiro em Belém a introduzir conjunto musical na Igreja, Os Beatos, corruptela de Beatles, fizeram furor naquela época. Ninguém os superava. Eles executaram a Missa Natalícia do maestro italiano Giombini com adaptação minha. As apresentações causavam reações e um dos maiores protestos partiu de João Malato, que, certa madrugada, acordou D. Alberto Gaudêncio Ramos para protestar contra meu comportamento.
João Malato era lido porque sabia escrever. Outra contundência dele contra mim foi quando escrevi o artigo "Devemos matar a deus". Nem ele e nem D. Alberto perceberam que deus estava escrito com letra minúscula.
Eu chegava da Europa. Em Belém ainda não era conhecida a Teologia da morte de deus que fora gerada pela Teologia da Dessacralizaçaoo. D. Alberto, não obstante ser homem lido, logo mandou-me cartão lamentando o escrito.
Ora, se o próprio Arcebispo reclamou do artigo, imaginem um jornalista leigo. Hoje se lê com sorriso o zelo antigo pela ortodoxia doutrinária.
Como a criatura poderia matar o Deus verdadeiro? O Deus de Javeh? O deus a ser morto fora o "formalismo religioso" que usurpara o lugar do verdadeiro Deus. Os Evangelhos relatam o Senhor Jesus vilipendiando o formalismo farisaico.
Pois bem, estas lembranças todas são para dizer do meu respeito pela coerência do jornalista com as suas idéias. Transferido que fui para a Catedral, seis meses depois acidentei - me gravemente, caindo de quase 5 metros de altura. Fiquei todo quebrado. Nem sentar-me podia. Só depois de meses comecei a celebrar, em cadeira de rodas.
Nessa agonia toda, certa manhã eu li em O LIBERAL do dia 21 de agosto de 1985 o seguinte: "Penalizou-me saber que o Revdo. Padre Nelson Soares, zeloso Cura da Sé e meu valente opositor no terreno das idéias, tenha sofrido um grave acidente no interior daquela Casa de Oração, o que lhe ocasionou algumas fraturas. Privando com o intrépido sacerdote há mais de 30 anos, sou conhecedor de seu empenho em salvaguardar as belezas arquitetônicas não só da nossa Catedral, já em trabalhos de restauração, como da Igreja de Santana, cujo vicariato exerceu por muitos anos. Quero formular-lhe aqui meus sinceros votos de pleno restabelecimento, para que suas obras vo.ltem ao ritmo que ele sempre lhes soube emprestar. João Malato". Eu transcrevi estes dizeres no Livro de Tombo pág. 37, do ano de 1985.
Anos antes eu o encontrei quando fui celebrar a Missa em Ação de Graças pelo restabelecimento de D. Julieta, esposa do vice-governador Agostinho Monteiro. Ele se reportou ao meu artigo "Advertências a um Paulo". Paulo Maranhão pediu-lhe que escrevesse algo contra mim. Ele não o atendeu. Disse-lhe que não havia motivo para isso.
Meu leitor, este artigo eu o escrevo para homenagear o jornalista Malato. Quando relatei tal escolha ao cônego Ápio Campos, foi esta a sua reação: "Se eu tivesse sido escolhido como tu foste, eu teria escolhido por patrono João Malato". Na verdade, o homem deve ser coerente com suas idéias. Mesmo discordando, é edificante se ver a coerência. Eis, então, o porquê de eu ter escolhido seu nome para meu patrono. Quero continuar a ser coerente comigo mesmo: minha coerência é pesquisar a verdade...
Fiquei comovido com a escolha, principalmente pela unanimidade. Na verdade o que faço no campo jornalístico é aplicar o princípio do Papa Paulo VI, quando escreveu sua Encíclica "Inter Mirifica", afirmando que "o leitor tem o direito de ser bem informado".
Pelo ofício, eu poderia escolher para patrono o nome de um jornalista falecido, com exclusão dos mencionados na lista anexa.
Eu comecei a ler a lista e, ao terminar a leitura, logo me veio à lembrança o nome do jornalista João Malato.
Minhas primeiras ligações com João Malato tiveram início a quando da entrada de seu filho no Seminário. Todos os meses, ele pontualmente ia pagar a mensalidade. Conversávamos.
Ao chegar à igreja de Santana, onde permaneci durante 26 anos, polemicamos repetidas vezes pelo jornal "A Folha do Norte" e, mais tarde, em O LIBERAL.
Sempre admirei o estilo desse homem, estilo escoreito, impecável no frasear, exuberante e forte, contundente e sobretudo coerente aos seus princípios. "Cada cabeça, uma sentença". Seremos julgados um dia não pela cabeça dos outros, mas pela nossa cabeça. Neste aspecto, nos identificamos. No seminário eu fora ortodoxo rígido. Seminarista com batina e sempre com batina. Eu não os aceitava nem de guarda pó, nas horas do verão. Copiava D. Mário Vilas Boas, que só permitia batinas pretas nas horas quente do verão.
Depois convenci-me que a dignidade sacerdotal não poderia depender de vestes, mas do "caráter indelével" impresso no sacerdote no dia da ordenação. Em Santana, graças ao Pe. João Belizário Comaru, consegui alargar minhas idéias. Passei a ser olhado como "da linha de frente da Igreja". Chamaram-me padre progressista. Fui o primeiro em Belém a introduzir conjunto musical na Igreja, Os Beatos, corruptela de Beatles, fizeram furor naquela época. Ninguém os superava. Eles executaram a Missa Natalícia do maestro italiano Giombini com adaptação minha. As apresentações causavam reações e um dos maiores protestos partiu de João Malato, que, certa madrugada, acordou D. Alberto Gaudêncio Ramos para protestar contra meu comportamento.
João Malato era lido porque sabia escrever. Outra contundência dele contra mim foi quando escrevi o artigo "Devemos matar a deus". Nem ele e nem D. Alberto perceberam que deus estava escrito com letra minúscula.
Eu chegava da Europa. Em Belém ainda não era conhecida a Teologia da morte de deus que fora gerada pela Teologia da Dessacralizaçaoo. D. Alberto, não obstante ser homem lido, logo mandou-me cartão lamentando o escrito.
Ora, se o próprio Arcebispo reclamou do artigo, imaginem um jornalista leigo. Hoje se lê com sorriso o zelo antigo pela ortodoxia doutrinária.
Como a criatura poderia matar o Deus verdadeiro? O Deus de Javeh? O deus a ser morto fora o "formalismo religioso" que usurpara o lugar do verdadeiro Deus. Os Evangelhos relatam o Senhor Jesus vilipendiando o formalismo farisaico.
Pois bem, estas lembranças todas são para dizer do meu respeito pela coerência do jornalista com as suas idéias. Transferido que fui para a Catedral, seis meses depois acidentei - me gravemente, caindo de quase 5 metros de altura. Fiquei todo quebrado. Nem sentar-me podia. Só depois de meses comecei a celebrar, em cadeira de rodas.
Nessa agonia toda, certa manhã eu li em O LIBERAL do dia 21 de agosto de 1985 o seguinte: "Penalizou-me saber que o Revdo. Padre Nelson Soares, zeloso Cura da Sé e meu valente opositor no terreno das idéias, tenha sofrido um grave acidente no interior daquela Casa de Oração, o que lhe ocasionou algumas fraturas. Privando com o intrépido sacerdote há mais de 30 anos, sou conhecedor de seu empenho em salvaguardar as belezas arquitetônicas não só da nossa Catedral, já em trabalhos de restauração, como da Igreja de Santana, cujo vicariato exerceu por muitos anos. Quero formular-lhe aqui meus sinceros votos de pleno restabelecimento, para que suas obras vo.ltem ao ritmo que ele sempre lhes soube emprestar. João Malato". Eu transcrevi estes dizeres no Livro de Tombo pág. 37, do ano de 1985.
Anos antes eu o encontrei quando fui celebrar a Missa em Ação de Graças pelo restabelecimento de D. Julieta, esposa do vice-governador Agostinho Monteiro. Ele se reportou ao meu artigo "Advertências a um Paulo". Paulo Maranhão pediu-lhe que escrevesse algo contra mim. Ele não o atendeu. Disse-lhe que não havia motivo para isso.
Meu leitor, este artigo eu o escrevo para homenagear o jornalista Malato. Quando relatei tal escolha ao cônego Ápio Campos, foi esta a sua reação: "Se eu tivesse sido escolhido como tu foste, eu teria escolhido por patrono João Malato". Na verdade, o homem deve ser coerente com suas idéias. Mesmo discordando, é edificante se ver a coerência. Eis, então, o porquê de eu ter escolhido seu nome para meu patrono. Quero continuar a ser coerente comigo mesmo: minha coerência é pesquisar a verdade...
Nenhum comentário:
Postar um comentário