segunda-feira, 5 de outubro de 2009

João Malato

O jornalista Donato Cardoso de Souza, DD. presidente da APJ, enviou-me ofício comunicando que "por unanimidade de seu corpo associado-perpétuo, fora escolhido para membro benemérito do Silogeu, em reconhecimento aos serviços prestados à imprensa". O ofício continha nomes ilustres da diretoria, como Acyr Cas­tro, Emanoel Ó de Almeida, Alfre­do Coimbra, Francisco Sidou e Aldemir Feio.
Fiquei comovido com a esco­lha, principalmente pela unanimi­dade. Na verdade o que faço no campo jornalístico é aplicar o prin­cípio do Papa Paulo VI, quando es­creveu sua Encíclica "Inter Mirifica", afirmando que "o leitor tem o direito de ser bem informado".
Pelo ofício, eu poderia escolher para patrono o nome de um jorna­lista falecido, com exclusão dos mencionados na lista anexa.
Eu comecei a ler a lista e, ao ter­minar a leitura, logo me veio à lembrança o nome do jornalista João Malato.
Minhas primeiras ligações com João Malato tiveram início a quan­do da entrada de seu filho no Se­minário. Todos os meses, ele pon­tualmente ia pagar a mensalidade. Conversávamos.
Ao chegar à igreja de Santana, onde permaneci durante 26 anos, polemicamos repetidas vezes pelo jornal "A Folha do Norte" e, mais tarde, em O LIBERAL.
Sempre admirei o estilo desse homem, estilo escoreito, impecá­vel no frasear, exuberante e forte, contundente e sobretudo coerente aos seus princípios. "Cada cabeça, uma sentença". Seremos julgados um dia não pela cabeça dos outros, mas pela nossa cabeça. Neste as­pecto, nos identificamos. No semi­nário eu fora ortodoxo rígido. Se­minarista com batina e sempre com batina. Eu não os aceitava nem de guarda pó, nas horas do ve­rão. Copiava D. Mário Vilas Boas, que só permitia batinas pretas nas horas quente do verão.
Depois convenci-me que a dig­nidade sacerdotal não poderia de­pender de vestes, mas do "caráter indelével" impresso no sacerdote no dia da ordenação. Em Santana, graças ao Pe. João Belizário Co­maru, consegui alargar minhas idéias. Passei a ser olhado como "da linha de frente da Igreja". Cha­maram-me padre progressista. Fui o primeiro em Belém a introduzir conjunto musical na Igreja, Os Beatos, corruptela de Beatles, fi­zeram furor naquela época. Nin­guém os superava. Eles executa­ram a Missa Natalícia do maestro italiano Giombini com adaptação minha. As apresentações causa­vam reações e um dos maiores protestos partiu de João Malato, que, certa madrugada, acordou D. Alberto Gaudêncio Ramos para protestar contra meu comporta­mento.
João Malato era lido porque sabia escrever. Outra contundência dele contra mim foi quando escre­vi o artigo "Devemos matar a deus". Nem ele e nem D. Alberto perceberam que deus estava escri­to com letra minúscula.
Eu chegava da Europa. Em Belém ainda não era conhecida a Teologia da morte de deus que fora gerada pela Teologia da Dessacralizaçaoo. D. Alberto, não obstante ser homem lido, logo mandou-­me cartão lamentando o escrito.
Ora, se o próprio Arcebispo re­clamou do artigo, imaginem um jornalista leigo. Hoje se lê com sor­riso o zelo antigo pela ortodoxia doutrinária.
Como a criatura poderia matar o Deus verdadeiro? O Deus de Ja­veh? O deus a ser morto fora o "formalismo religioso" que usur­para o lugar do verdadeiro Deus. Os Evangelhos relatam o Senhor Jesus vilipendiando o formalismo farisaico.
Pois bem, estas lembranças to­das são para dizer do meu respei­to pela coerência do jornalista com as suas idéias. Transferido que fui para a Ca­tedral, seis meses depois acidentei­ - me gravemente, caindo de quase 5 metros de al­tura. Fiquei todo quebrado. Nem sentar-me podia. Só depois de me­ses comecei a celebrar, em cadei­ra de rodas.
Nessa agonia toda, certa manhã eu li em O LIBERAL do dia 21 de agosto de 1985 o seguinte: "Pe­nalizou-me saber que o Revdo. Padre Nelson Soares, zeloso Cura da Sé e meu valente opositor no terreno das idéias, tenha sofrido um grave acidente no interior da­quela Casa de Oração, o que lhe ocasionou algumas fraturas. Pri­vando com o intrépido sacerdote há mais de 30 anos, sou conhece­dor de seu empenho em salvaguar­dar as belezas arquitetônicas não só da nossa Catedral, já em traba­lhos de restauração, como da Igreja de Santana, cujo vicariato exer­ceu por muitos anos. Quero formu­lar-lhe aqui meus sinceros votos de pleno restabelecimento, para que suas obras vo.ltem ao ritmo que ele sempre lhes soube emprestar. João Malato". Eu transcrevi estes dize­res no Livro de Tombo pág. 37, do ano de 1985.
Anos antes eu o encontrei quan­do fui celebrar a Missa em Ação de Graças pelo restabelecimento de D. Julieta, esposa do vice-go­vernador Agostinho Monteiro. Ele se reportou ao meu artigo "Adver­tências a um Paulo". Paulo Mara­nhão pediu-lhe que escrevesse al­go contra mim. Ele não o atendeu. Disse-lhe que não havia motivo para isso.
Meu leitor, este artigo eu o es­crevo para homenagear o jornalis­ta Malato. Quando relatei tal escolha ao cônego Ápio Campos, foi esta a sua reação: "Se eu tivesse si­do escolhido como tu foste, eu te­ria escolhido por patrono João Ma­lato". Na verdade, o homem deve ser coerente com suas idéias. Mes­mo discordando, é edificante se ver a coerência. Eis, então, o porquê de eu ter escolhido seu nome para meu patrono. Quero continuar a ser coerente comigo mesmo: minha coerência é pesquisar a verdade...

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