Aos benévolos leitores lhes digo: Para mim ficou encerrado o assunto Catedral. Fiquei sozinho na luta: "uma andorinha não faz verão". No caso do IPAR e do Arcebispado, li comentários outros. Recebi apoio. Desta vez ninguém. Ao leitor digo: cumpri meu dever. Maranhense de nascimento, sou paraense de coração e de mente, sou paraense por decreto e cidadão de Belém pela Câmara Municipal. Eu me orgulho de ser paraense, e, como sacerdote, defendi o patrimônio desta Igreja particular, respeitando os que me antecederam e zelando pelo que recebi.
No passado, tomaram na marra D. Jerônimo Tomé da Silva na sua Carta Pastoral, datada de 23/04/1892, à página 14, cita o antecessor D. Frei Caetano Brandão, lido no tom. 1, pág. 120, sobre o Hospital da Santa Casa: "Queremos que esta casa fique sujeita à nossa jurisdição e dos nossos sucessores; o que nos pertence por direito, visto ter sido fundada por nossa autoridade e teve a sua primeira origem do nosso zelo e das nossas diligências. Outro sim, ordenamos que a manutenção dos oficiais da referida casa seja por nós e nossos sucessores etc..."
Apesar de tudo, no dia 20/11/1890 o então governador do Estado Dr. Justo
Leite Chermont secularizou a irmandade, ficando o Estado com todos os bens.
Agora leiamos D. Jerônimo Tomé da Silva: "Protestamos contra a secularização da irmandade da Santa Casa de Misericórdia do Pará e declaramos solenemente perante os homens retos, perante os tribunais onde a justiça serve de norma, que o patrimônio da Santa Casa, constitui uma propriedade eclesiástica, resultante de doações de fiéis, legados e esmolas e, portanto, é nulo de pleno direito perante Deus e a consciência qualquer alienação do patrimônio, qualquer transação sobre o mesmo, sem aquiescência do prelado diocesano". A representação foi feita pelo Revmo. Mons. José Gregório Coelho, Vigário Capitular. Por falta de espaço, não irei citar aqui outras apropriações indébitas mascaradas todas de um tal comodato. Quando a Arquidiocese poderá arcar com a infra-estrutura do atual acervo?
No presente, cento e quatorze anos depois também no dia 20, um bispo simploriamente entrega a Catedral para aberrações. Mente não acuada, começaria o trabalho pelo telhado. Tudo o mais viria depois; teimosia tola quis demolir logo a casa do padre. Eu aviso ao leitor: montanha de ferro irá sair do local e levada para onde? As vigas foram trabalhadas pela Micon, graças a generosidade do senhor Luizinho Macedo. Será que elas irão ser vendidas a quilo, como vendida foi o ferro da antiga Caixa D’água, junto da Fábrica Palmeira? Quem vendeu como sucata à Copala foi o senhor Jorge Chaves. Ou será que estas vigas terão outro destino espúrio?...
Não bastou a tomada da Igreja de Santo Alexandre, o Arcebispado de Belém, do Seminário N. Sra. da Conceição, das casas da Ladeira do Castelo e as da rua Pe. Champagnat? Agora a Catedral. Ficará ela em comodato para núcleo da Feliz Lusitânia?
Reflita o leitor: nenhuma notícia foi publicada para ressaltar o culto divino, para atualizar a liturgia, para propiciar ambiente humano ao padre, para cultivar nosso Deus. Todo o anunciado foi para propiciar turismo. O turismo religioso quer adorar a Deus no seu templo e contemplar o sagrado.
Vale considerarem-se as esmolas do povo. Dom Frei Caetano Brandão saía de casa em casa a esmolar: Era recebido com reverência. Assim dizia: "se eu fosse um magnata, um príncipe, um rei, não seria tão bem recebido como fui pelo povo cristão". O gesto deste bispo foi jogado no lixo, como no lixo jogadas foram as ofertas, as esmolas, a generosidade do povo crente.
Lembro-me do Sr. Milton Trindade, superintendente dos Diários Associados e Senador da República, saía comigo para esmolar, lembro-me do Sr. Plácido Ramos, do Sr. Alfredo Gomes, do Sr. Nicolas Constantinidis, do Sr. Alberto Pinheiro, do Sr. Rômulo Maiorana, do Sr. Joaquim Alves e seu irmão, do Sr. Antonio Marques e irmão Benjamin, do Jaú o camiseiro, do Dr. Maurício Coelho de Souza e de seu irmão Dr. Daniel, que foi reitor da Universidade, todos eles contribuíram para o culto. Lembro-me comovido do Sr. Lacyr e esposa, d. Praxedes, de d. Rosa Lopes, de d. Alfreda, de d. Maria de Lourdes, de d. Aide, de d. Carmem, d. Beatriz, almas gigantes que se privaram para atender a Igreja. Toda generosidade e esmolas foram desprezadas. Nunca comprei seixo, areia, barro, porque o Sr. Carlito jamais cobrou um centavo.
Qualifiquei o Dr. Hélio Gueiros e o senhor Marcos Marcelino como arautos do Rei na campanha do órgão. Lembro-me do Dr. Lutfala Bitar, só de uma vez doou 100 sacos de cimento. Quantas vezes lacrimejei ao receber ofertas, algumas pequenas, mas todas generosas. Pois bem, meu leitor, o que foi feito com zelo, caridade e espírito de fé, a insensatez lança fora sem critério, ou melhor, para lucrar divisas e promover vaidades.
Onde estão os juristas católicos desta terra que deveriam dar apoio ao Arcebispo, que acabara de chegar a estas plagas, encontrando tamanho abacaxi sem poder descascá-lo?
Onde estão os engenheiros e arquitetos católicos para gritarem contra tão irreverência? Onde está o povo da Cidade Velha, os paroquianos da Sé, os católicos de
Belém, os sacerdotes diocesanos de Belém? Eu duvido que isto aconteça com os religiosos. Eles defendem seu patrimônio. Parece que os outros da terceira categoria.
Agora dizem: O povo não auxilia como antigamente. Auxiliar igreja para depois aparecer irresponsável e profanar os sacrifícios e as generosidades. Ante o tamanho descalabro afirmo que tudo tem um valor econômico. Os valores não deverão ser jogados fora. Auxiliar templos católicos significa jogar dinheiro no lixo. Onde vamos parar?
Neste momento eu levanto o meu gritante protesto. O telhado da Sé está desgastado sim. Remendem o telhado, mas atendam a funcionalidade do Templo. Quero reafirmar que estes 20 anos passados foram escuros, negros para os templos da Igreja de Belém. O futuro haverá de fazer justiça. Saiba o leitor: Os católicos do séc. XVIII construíram o templo, os católicos do séc. XIX embelezaram o templo. Os católicos do séc. XX terminaram o templo. E os do séc. XXI?
13 de maio de 2006
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
João Malato
O jornalista Donato Cardoso de Souza, DD. presidente da APJ, enviou-me ofício comunicando que "por unanimidade de seu corpo associado-perpétuo, fora escolhido para membro benemérito do Silogeu, em reconhecimento aos serviços prestados à imprensa". O ofício continha nomes ilustres da diretoria, como Acyr Castro, Emanoel Ó de Almeida, Alfredo Coimbra, Francisco Sidou e Aldemir Feio.
Fiquei comovido com a escolha, principalmente pela unanimidade. Na verdade o que faço no campo jornalístico é aplicar o princípio do Papa Paulo VI, quando escreveu sua Encíclica "Inter Mirifica", afirmando que "o leitor tem o direito de ser bem informado".
Pelo ofício, eu poderia escolher para patrono o nome de um jornalista falecido, com exclusão dos mencionados na lista anexa.
Eu comecei a ler a lista e, ao terminar a leitura, logo me veio à lembrança o nome do jornalista João Malato.
Minhas primeiras ligações com João Malato tiveram início a quando da entrada de seu filho no Seminário. Todos os meses, ele pontualmente ia pagar a mensalidade. Conversávamos.
Ao chegar à igreja de Santana, onde permaneci durante 26 anos, polemicamos repetidas vezes pelo jornal "A Folha do Norte" e, mais tarde, em O LIBERAL.
Sempre admirei o estilo desse homem, estilo escoreito, impecável no frasear, exuberante e forte, contundente e sobretudo coerente aos seus princípios. "Cada cabeça, uma sentença". Seremos julgados um dia não pela cabeça dos outros, mas pela nossa cabeça. Neste aspecto, nos identificamos. No seminário eu fora ortodoxo rígido. Seminarista com batina e sempre com batina. Eu não os aceitava nem de guarda pó, nas horas do verão. Copiava D. Mário Vilas Boas, que só permitia batinas pretas nas horas quente do verão.
Depois convenci-me que a dignidade sacerdotal não poderia depender de vestes, mas do "caráter indelével" impresso no sacerdote no dia da ordenação. Em Santana, graças ao Pe. João Belizário Comaru, consegui alargar minhas idéias. Passei a ser olhado como "da linha de frente da Igreja". Chamaram-me padre progressista. Fui o primeiro em Belém a introduzir conjunto musical na Igreja, Os Beatos, corruptela de Beatles, fizeram furor naquela época. Ninguém os superava. Eles executaram a Missa Natalícia do maestro italiano Giombini com adaptação minha. As apresentações causavam reações e um dos maiores protestos partiu de João Malato, que, certa madrugada, acordou D. Alberto Gaudêncio Ramos para protestar contra meu comportamento.
João Malato era lido porque sabia escrever. Outra contundência dele contra mim foi quando escrevi o artigo "Devemos matar a deus". Nem ele e nem D. Alberto perceberam que deus estava escrito com letra minúscula.
Eu chegava da Europa. Em Belém ainda não era conhecida a Teologia da morte de deus que fora gerada pela Teologia da Dessacralizaçaoo. D. Alberto, não obstante ser homem lido, logo mandou-me cartão lamentando o escrito.
Ora, se o próprio Arcebispo reclamou do artigo, imaginem um jornalista leigo. Hoje se lê com sorriso o zelo antigo pela ortodoxia doutrinária.
Como a criatura poderia matar o Deus verdadeiro? O Deus de Javeh? O deus a ser morto fora o "formalismo religioso" que usurpara o lugar do verdadeiro Deus. Os Evangelhos relatam o Senhor Jesus vilipendiando o formalismo farisaico.
Pois bem, estas lembranças todas são para dizer do meu respeito pela coerência do jornalista com as suas idéias. Transferido que fui para a Catedral, seis meses depois acidentei - me gravemente, caindo de quase 5 metros de altura. Fiquei todo quebrado. Nem sentar-me podia. Só depois de meses comecei a celebrar, em cadeira de rodas.
Nessa agonia toda, certa manhã eu li em O LIBERAL do dia 21 de agosto de 1985 o seguinte: "Penalizou-me saber que o Revdo. Padre Nelson Soares, zeloso Cura da Sé e meu valente opositor no terreno das idéias, tenha sofrido um grave acidente no interior daquela Casa de Oração, o que lhe ocasionou algumas fraturas. Privando com o intrépido sacerdote há mais de 30 anos, sou conhecedor de seu empenho em salvaguardar as belezas arquitetônicas não só da nossa Catedral, já em trabalhos de restauração, como da Igreja de Santana, cujo vicariato exerceu por muitos anos. Quero formular-lhe aqui meus sinceros votos de pleno restabelecimento, para que suas obras vo.ltem ao ritmo que ele sempre lhes soube emprestar. João Malato". Eu transcrevi estes dizeres no Livro de Tombo pág. 37, do ano de 1985.
Anos antes eu o encontrei quando fui celebrar a Missa em Ação de Graças pelo restabelecimento de D. Julieta, esposa do vice-governador Agostinho Monteiro. Ele se reportou ao meu artigo "Advertências a um Paulo". Paulo Maranhão pediu-lhe que escrevesse algo contra mim. Ele não o atendeu. Disse-lhe que não havia motivo para isso.
Meu leitor, este artigo eu o escrevo para homenagear o jornalista Malato. Quando relatei tal escolha ao cônego Ápio Campos, foi esta a sua reação: "Se eu tivesse sido escolhido como tu foste, eu teria escolhido por patrono João Malato". Na verdade, o homem deve ser coerente com suas idéias. Mesmo discordando, é edificante se ver a coerência. Eis, então, o porquê de eu ter escolhido seu nome para meu patrono. Quero continuar a ser coerente comigo mesmo: minha coerência é pesquisar a verdade...
Fiquei comovido com a escolha, principalmente pela unanimidade. Na verdade o que faço no campo jornalístico é aplicar o princípio do Papa Paulo VI, quando escreveu sua Encíclica "Inter Mirifica", afirmando que "o leitor tem o direito de ser bem informado".
Pelo ofício, eu poderia escolher para patrono o nome de um jornalista falecido, com exclusão dos mencionados na lista anexa.
Eu comecei a ler a lista e, ao terminar a leitura, logo me veio à lembrança o nome do jornalista João Malato.
Minhas primeiras ligações com João Malato tiveram início a quando da entrada de seu filho no Seminário. Todos os meses, ele pontualmente ia pagar a mensalidade. Conversávamos.
Ao chegar à igreja de Santana, onde permaneci durante 26 anos, polemicamos repetidas vezes pelo jornal "A Folha do Norte" e, mais tarde, em O LIBERAL.
Sempre admirei o estilo desse homem, estilo escoreito, impecável no frasear, exuberante e forte, contundente e sobretudo coerente aos seus princípios. "Cada cabeça, uma sentença". Seremos julgados um dia não pela cabeça dos outros, mas pela nossa cabeça. Neste aspecto, nos identificamos. No seminário eu fora ortodoxo rígido. Seminarista com batina e sempre com batina. Eu não os aceitava nem de guarda pó, nas horas do verão. Copiava D. Mário Vilas Boas, que só permitia batinas pretas nas horas quente do verão.
Depois convenci-me que a dignidade sacerdotal não poderia depender de vestes, mas do "caráter indelével" impresso no sacerdote no dia da ordenação. Em Santana, graças ao Pe. João Belizário Comaru, consegui alargar minhas idéias. Passei a ser olhado como "da linha de frente da Igreja". Chamaram-me padre progressista. Fui o primeiro em Belém a introduzir conjunto musical na Igreja, Os Beatos, corruptela de Beatles, fizeram furor naquela época. Ninguém os superava. Eles executaram a Missa Natalícia do maestro italiano Giombini com adaptação minha. As apresentações causavam reações e um dos maiores protestos partiu de João Malato, que, certa madrugada, acordou D. Alberto Gaudêncio Ramos para protestar contra meu comportamento.
João Malato era lido porque sabia escrever. Outra contundência dele contra mim foi quando escrevi o artigo "Devemos matar a deus". Nem ele e nem D. Alberto perceberam que deus estava escrito com letra minúscula.
Eu chegava da Europa. Em Belém ainda não era conhecida a Teologia da morte de deus que fora gerada pela Teologia da Dessacralizaçaoo. D. Alberto, não obstante ser homem lido, logo mandou-me cartão lamentando o escrito.
Ora, se o próprio Arcebispo reclamou do artigo, imaginem um jornalista leigo. Hoje se lê com sorriso o zelo antigo pela ortodoxia doutrinária.
Como a criatura poderia matar o Deus verdadeiro? O Deus de Javeh? O deus a ser morto fora o "formalismo religioso" que usurpara o lugar do verdadeiro Deus. Os Evangelhos relatam o Senhor Jesus vilipendiando o formalismo farisaico.
Pois bem, estas lembranças todas são para dizer do meu respeito pela coerência do jornalista com as suas idéias. Transferido que fui para a Catedral, seis meses depois acidentei - me gravemente, caindo de quase 5 metros de altura. Fiquei todo quebrado. Nem sentar-me podia. Só depois de meses comecei a celebrar, em cadeira de rodas.
Nessa agonia toda, certa manhã eu li em O LIBERAL do dia 21 de agosto de 1985 o seguinte: "Penalizou-me saber que o Revdo. Padre Nelson Soares, zeloso Cura da Sé e meu valente opositor no terreno das idéias, tenha sofrido um grave acidente no interior daquela Casa de Oração, o que lhe ocasionou algumas fraturas. Privando com o intrépido sacerdote há mais de 30 anos, sou conhecedor de seu empenho em salvaguardar as belezas arquitetônicas não só da nossa Catedral, já em trabalhos de restauração, como da Igreja de Santana, cujo vicariato exerceu por muitos anos. Quero formular-lhe aqui meus sinceros votos de pleno restabelecimento, para que suas obras vo.ltem ao ritmo que ele sempre lhes soube emprestar. João Malato". Eu transcrevi estes dizeres no Livro de Tombo pág. 37, do ano de 1985.
Anos antes eu o encontrei quando fui celebrar a Missa em Ação de Graças pelo restabelecimento de D. Julieta, esposa do vice-governador Agostinho Monteiro. Ele se reportou ao meu artigo "Advertências a um Paulo". Paulo Maranhão pediu-lhe que escrevesse algo contra mim. Ele não o atendeu. Disse-lhe que não havia motivo para isso.
Meu leitor, este artigo eu o escrevo para homenagear o jornalista Malato. Quando relatei tal escolha ao cônego Ápio Campos, foi esta a sua reação: "Se eu tivesse sido escolhido como tu foste, eu teria escolhido por patrono João Malato". Na verdade, o homem deve ser coerente com suas idéias. Mesmo discordando, é edificante se ver a coerência. Eis, então, o porquê de eu ter escolhido seu nome para meu patrono. Quero continuar a ser coerente comigo mesmo: minha coerência é pesquisar a verdade...
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