
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Meu Deus, meu Deus
Aos benévolos leitores lhes digo: Para mim ficou encerrado o assunto Catedral. Fiquei sozinho na luta: "uma andorinha não faz verão". No caso do IPAR e do Arcebispado, li comentários outros. Recebi apoio. Desta vez ninguém. Ao leitor digo: cumpri meu dever. Maranhense de nascimento, sou paraense de coração e de mente, sou paraense por decreto e cidadão de Belém pela Câmara Municipal. Eu me orgulho de ser paraense, e, como sacerdote, defendi o patrimônio desta Igreja particular, respeitando os que me antecederam e zelando pelo que recebi.
No passado, tomaram na marra D. Jerônimo Tomé da Silva na sua Carta Pastoral, datada de 23/04/1892, à página 14, cita o antecessor D. Frei Caetano Brandão, lido no tom. 1, pág. 120, sobre o Hospital da Santa Casa: "Queremos que esta casa fique sujeita à nossa jurisdição e dos nossos sucessores; o que nos pertence por direito, visto ter sido fundada por nossa autoridade e teve a sua primeira origem do nosso zelo e das nossas diligências. Outro sim, ordenamos que a manutenção dos oficiais da referida casa seja por nós e nossos sucessores etc..."
Apesar de tudo, no dia 20/11/1890 o então governador do Estado Dr. Justo
Leite Chermont secularizou a irmandade, ficando o Estado com todos os bens.
Agora leiamos D. Jerônimo Tomé da Silva: "Protestamos contra a secularização da irmandade da Santa Casa de Misericórdia do Pará e declaramos solenemente perante os homens retos, perante os tribunais onde a justiça serve de norma, que o patrimônio da Santa Casa, constitui uma propriedade eclesiástica, resultante de doações de fiéis, legados e esmolas e, portanto, é nulo de pleno direito perante Deus e a consciência qualquer alienação do patrimônio, qualquer transação sobre o mesmo, sem aquiescência do prelado diocesano". A representação foi feita pelo Revmo. Mons. José Gregório Coelho, Vigário Capitular. Por falta de espaço, não irei citar aqui outras apropriações indébitas mascaradas todas de um tal comodato. Quando a Arquidiocese poderá arcar com a infra-estrutura do atual acervo?
No presente, cento e quatorze anos depois também no dia 20, um bispo simploriamente entrega a Catedral para aberrações. Mente não acuada, começaria o trabalho pelo telhado. Tudo o mais viria depois; teimosia tola quis demolir logo a casa do padre. Eu aviso ao leitor: montanha de ferro irá sair do local e levada para onde? As vigas foram trabalhadas pela Micon, graças a generosidade do senhor Luizinho Macedo. Será que elas irão ser vendidas a quilo, como vendida foi o ferro da antiga Caixa D’água, junto da Fábrica Palmeira? Quem vendeu como sucata à Copala foi o senhor Jorge Chaves. Ou será que estas vigas terão outro destino espúrio?...
Não bastou a tomada da Igreja de Santo Alexandre, o Arcebispado de Belém, do Seminário N. Sra. da Conceição, das casas da Ladeira do Castelo e as da rua Pe. Champagnat? Agora a Catedral. Ficará ela em comodato para núcleo da Feliz Lusitânia?
Reflita o leitor: nenhuma notícia foi publicada para ressaltar o culto divino, para atualizar a liturgia, para propiciar ambiente humano ao padre, para cultivar nosso Deus. Todo o anunciado foi para propiciar turismo. O turismo religioso quer adorar a Deus no seu templo e contemplar o sagrado.
Vale considerarem-se as esmolas do povo. Dom Frei Caetano Brandão saía de casa em casa a esmolar: Era recebido com reverência. Assim dizia: "se eu fosse um magnata, um príncipe, um rei, não seria tão bem recebido como fui pelo povo cristão". O gesto deste bispo foi jogado no lixo, como no lixo jogadas foram as ofertas, as esmolas, a generosidade do povo crente.
Lembro-me do Sr. Milton Trindade, superintendente dos Diários Associados e Senador da República, saía comigo para esmolar, lembro-me do Sr. Plácido Ramos, do Sr. Alfredo Gomes, do Sr. Nicolas Constantinidis, do Sr. Alberto Pinheiro, do Sr. Rômulo Maiorana, do Sr. Joaquim Alves e seu irmão, do Sr. Antonio Marques e irmão Benjamin, do Jaú o camiseiro, do Dr. Maurício Coelho de Souza e de seu irmão Dr. Daniel, que foi reitor da Universidade, todos eles contribuíram para o culto. Lembro-me comovido do Sr. Lacyr e esposa, d. Praxedes, de d. Rosa Lopes, de d. Alfreda, de d. Maria de Lourdes, de d. Aide, de d. Carmem, d. Beatriz, almas gigantes que se privaram para atender a Igreja. Toda generosidade e esmolas foram desprezadas. Nunca comprei seixo, areia, barro, porque o Sr. Carlito jamais cobrou um centavo.
Qualifiquei o Dr. Hélio Gueiros e o senhor Marcos Marcelino como arautos do Rei na campanha do órgão. Lembro-me do Dr. Lutfala Bitar, só de uma vez doou 100 sacos de cimento. Quantas vezes lacrimejei ao receber ofertas, algumas pequenas, mas todas generosas. Pois bem, meu leitor, o que foi feito com zelo, caridade e espírito de fé, a insensatez lança fora sem critério, ou melhor, para lucrar divisas e promover vaidades.
Onde estão os juristas católicos desta terra que deveriam dar apoio ao Arcebispo, que acabara de chegar a estas plagas, encontrando tamanho abacaxi sem poder descascá-lo?
Onde estão os engenheiros e arquitetos católicos para gritarem contra tão irreverência? Onde está o povo da Cidade Velha, os paroquianos da Sé, os católicos de
Belém, os sacerdotes diocesanos de Belém? Eu duvido que isto aconteça com os religiosos. Eles defendem seu patrimônio. Parece que os outros da terceira categoria.
Agora dizem: O povo não auxilia como antigamente. Auxiliar igreja para depois aparecer irresponsável e profanar os sacrifícios e as generosidades. Ante o tamanho descalabro afirmo que tudo tem um valor econômico. Os valores não deverão ser jogados fora. Auxiliar templos católicos significa jogar dinheiro no lixo. Onde vamos parar?
Neste momento eu levanto o meu gritante protesto. O telhado da Sé está desgastado sim. Remendem o telhado, mas atendam a funcionalidade do Templo. Quero reafirmar que estes 20 anos passados foram escuros, negros para os templos da Igreja de Belém. O futuro haverá de fazer justiça. Saiba o leitor: Os católicos do séc. XVIII construíram o templo, os católicos do séc. XIX embelezaram o templo. Os católicos do séc. XX terminaram o templo. E os do séc. XXI?
13 de maio de 2006
No passado, tomaram na marra D. Jerônimo Tomé da Silva na sua Carta Pastoral, datada de 23/04/1892, à página 14, cita o antecessor D. Frei Caetano Brandão, lido no tom. 1, pág. 120, sobre o Hospital da Santa Casa: "Queremos que esta casa fique sujeita à nossa jurisdição e dos nossos sucessores; o que nos pertence por direito, visto ter sido fundada por nossa autoridade e teve a sua primeira origem do nosso zelo e das nossas diligências. Outro sim, ordenamos que a manutenção dos oficiais da referida casa seja por nós e nossos sucessores etc..."
Apesar de tudo, no dia 20/11/1890 o então governador do Estado Dr. Justo
Leite Chermont secularizou a irmandade, ficando o Estado com todos os bens.
Agora leiamos D. Jerônimo Tomé da Silva: "Protestamos contra a secularização da irmandade da Santa Casa de Misericórdia do Pará e declaramos solenemente perante os homens retos, perante os tribunais onde a justiça serve de norma, que o patrimônio da Santa Casa, constitui uma propriedade eclesiástica, resultante de doações de fiéis, legados e esmolas e, portanto, é nulo de pleno direito perante Deus e a consciência qualquer alienação do patrimônio, qualquer transação sobre o mesmo, sem aquiescência do prelado diocesano". A representação foi feita pelo Revmo. Mons. José Gregório Coelho, Vigário Capitular. Por falta de espaço, não irei citar aqui outras apropriações indébitas mascaradas todas de um tal comodato. Quando a Arquidiocese poderá arcar com a infra-estrutura do atual acervo?
No presente, cento e quatorze anos depois também no dia 20, um bispo simploriamente entrega a Catedral para aberrações. Mente não acuada, começaria o trabalho pelo telhado. Tudo o mais viria depois; teimosia tola quis demolir logo a casa do padre. Eu aviso ao leitor: montanha de ferro irá sair do local e levada para onde? As vigas foram trabalhadas pela Micon, graças a generosidade do senhor Luizinho Macedo. Será que elas irão ser vendidas a quilo, como vendida foi o ferro da antiga Caixa D’água, junto da Fábrica Palmeira? Quem vendeu como sucata à Copala foi o senhor Jorge Chaves. Ou será que estas vigas terão outro destino espúrio?...
Não bastou a tomada da Igreja de Santo Alexandre, o Arcebispado de Belém, do Seminário N. Sra. da Conceição, das casas da Ladeira do Castelo e as da rua Pe. Champagnat? Agora a Catedral. Ficará ela em comodato para núcleo da Feliz Lusitânia?
Reflita o leitor: nenhuma notícia foi publicada para ressaltar o culto divino, para atualizar a liturgia, para propiciar ambiente humano ao padre, para cultivar nosso Deus. Todo o anunciado foi para propiciar turismo. O turismo religioso quer adorar a Deus no seu templo e contemplar o sagrado.
Vale considerarem-se as esmolas do povo. Dom Frei Caetano Brandão saía de casa em casa a esmolar: Era recebido com reverência. Assim dizia: "se eu fosse um magnata, um príncipe, um rei, não seria tão bem recebido como fui pelo povo cristão". O gesto deste bispo foi jogado no lixo, como no lixo jogadas foram as ofertas, as esmolas, a generosidade do povo crente.
Lembro-me do Sr. Milton Trindade, superintendente dos Diários Associados e Senador da República, saía comigo para esmolar, lembro-me do Sr. Plácido Ramos, do Sr. Alfredo Gomes, do Sr. Nicolas Constantinidis, do Sr. Alberto Pinheiro, do Sr. Rômulo Maiorana, do Sr. Joaquim Alves e seu irmão, do Sr. Antonio Marques e irmão Benjamin, do Jaú o camiseiro, do Dr. Maurício Coelho de Souza e de seu irmão Dr. Daniel, que foi reitor da Universidade, todos eles contribuíram para o culto. Lembro-me comovido do Sr. Lacyr e esposa, d. Praxedes, de d. Rosa Lopes, de d. Alfreda, de d. Maria de Lourdes, de d. Aide, de d. Carmem, d. Beatriz, almas gigantes que se privaram para atender a Igreja. Toda generosidade e esmolas foram desprezadas. Nunca comprei seixo, areia, barro, porque o Sr. Carlito jamais cobrou um centavo.
Qualifiquei o Dr. Hélio Gueiros e o senhor Marcos Marcelino como arautos do Rei na campanha do órgão. Lembro-me do Dr. Lutfala Bitar, só de uma vez doou 100 sacos de cimento. Quantas vezes lacrimejei ao receber ofertas, algumas pequenas, mas todas generosas. Pois bem, meu leitor, o que foi feito com zelo, caridade e espírito de fé, a insensatez lança fora sem critério, ou melhor, para lucrar divisas e promover vaidades.
Onde estão os juristas católicos desta terra que deveriam dar apoio ao Arcebispo, que acabara de chegar a estas plagas, encontrando tamanho abacaxi sem poder descascá-lo?
Onde estão os engenheiros e arquitetos católicos para gritarem contra tão irreverência? Onde está o povo da Cidade Velha, os paroquianos da Sé, os católicos de
Belém, os sacerdotes diocesanos de Belém? Eu duvido que isto aconteça com os religiosos. Eles defendem seu patrimônio. Parece que os outros da terceira categoria.
Agora dizem: O povo não auxilia como antigamente. Auxiliar igreja para depois aparecer irresponsável e profanar os sacrifícios e as generosidades. Ante o tamanho descalabro afirmo que tudo tem um valor econômico. Os valores não deverão ser jogados fora. Auxiliar templos católicos significa jogar dinheiro no lixo. Onde vamos parar?
Neste momento eu levanto o meu gritante protesto. O telhado da Sé está desgastado sim. Remendem o telhado, mas atendam a funcionalidade do Templo. Quero reafirmar que estes 20 anos passados foram escuros, negros para os templos da Igreja de Belém. O futuro haverá de fazer justiça. Saiba o leitor: Os católicos do séc. XVIII construíram o templo, os católicos do séc. XIX embelezaram o templo. Os católicos do séc. XX terminaram o templo. E os do séc. XXI?
13 de maio de 2006
João Malato
O jornalista Donato Cardoso de Souza, DD. presidente da APJ, enviou-me ofício comunicando que "por unanimidade de seu corpo associado-perpétuo, fora escolhido para membro benemérito do Silogeu, em reconhecimento aos serviços prestados à imprensa". O ofício continha nomes ilustres da diretoria, como Acyr Castro, Emanoel Ó de Almeida, Alfredo Coimbra, Francisco Sidou e Aldemir Feio.
Fiquei comovido com a escolha, principalmente pela unanimidade. Na verdade o que faço no campo jornalístico é aplicar o princípio do Papa Paulo VI, quando escreveu sua Encíclica "Inter Mirifica", afirmando que "o leitor tem o direito de ser bem informado".
Pelo ofício, eu poderia escolher para patrono o nome de um jornalista falecido, com exclusão dos mencionados na lista anexa.
Eu comecei a ler a lista e, ao terminar a leitura, logo me veio à lembrança o nome do jornalista João Malato.
Minhas primeiras ligações com João Malato tiveram início a quando da entrada de seu filho no Seminário. Todos os meses, ele pontualmente ia pagar a mensalidade. Conversávamos.
Ao chegar à igreja de Santana, onde permaneci durante 26 anos, polemicamos repetidas vezes pelo jornal "A Folha do Norte" e, mais tarde, em O LIBERAL.
Sempre admirei o estilo desse homem, estilo escoreito, impecável no frasear, exuberante e forte, contundente e sobretudo coerente aos seus princípios. "Cada cabeça, uma sentença". Seremos julgados um dia não pela cabeça dos outros, mas pela nossa cabeça. Neste aspecto, nos identificamos. No seminário eu fora ortodoxo rígido. Seminarista com batina e sempre com batina. Eu não os aceitava nem de guarda pó, nas horas do verão. Copiava D. Mário Vilas Boas, que só permitia batinas pretas nas horas quente do verão.
Depois convenci-me que a dignidade sacerdotal não poderia depender de vestes, mas do "caráter indelével" impresso no sacerdote no dia da ordenação. Em Santana, graças ao Pe. João Belizário Comaru, consegui alargar minhas idéias. Passei a ser olhado como "da linha de frente da Igreja". Chamaram-me padre progressista. Fui o primeiro em Belém a introduzir conjunto musical na Igreja, Os Beatos, corruptela de Beatles, fizeram furor naquela época. Ninguém os superava. Eles executaram a Missa Natalícia do maestro italiano Giombini com adaptação minha. As apresentações causavam reações e um dos maiores protestos partiu de João Malato, que, certa madrugada, acordou D. Alberto Gaudêncio Ramos para protestar contra meu comportamento.
João Malato era lido porque sabia escrever. Outra contundência dele contra mim foi quando escrevi o artigo "Devemos matar a deus". Nem ele e nem D. Alberto perceberam que deus estava escrito com letra minúscula.
Eu chegava da Europa. Em Belém ainda não era conhecida a Teologia da morte de deus que fora gerada pela Teologia da Dessacralizaçaoo. D. Alberto, não obstante ser homem lido, logo mandou-me cartão lamentando o escrito.
Ora, se o próprio Arcebispo reclamou do artigo, imaginem um jornalista leigo. Hoje se lê com sorriso o zelo antigo pela ortodoxia doutrinária.
Como a criatura poderia matar o Deus verdadeiro? O Deus de Javeh? O deus a ser morto fora o "formalismo religioso" que usurpara o lugar do verdadeiro Deus. Os Evangelhos relatam o Senhor Jesus vilipendiando o formalismo farisaico.
Pois bem, estas lembranças todas são para dizer do meu respeito pela coerência do jornalista com as suas idéias. Transferido que fui para a Catedral, seis meses depois acidentei - me gravemente, caindo de quase 5 metros de altura. Fiquei todo quebrado. Nem sentar-me podia. Só depois de meses comecei a celebrar, em cadeira de rodas.
Nessa agonia toda, certa manhã eu li em O LIBERAL do dia 21 de agosto de 1985 o seguinte: "Penalizou-me saber que o Revdo. Padre Nelson Soares, zeloso Cura da Sé e meu valente opositor no terreno das idéias, tenha sofrido um grave acidente no interior daquela Casa de Oração, o que lhe ocasionou algumas fraturas. Privando com o intrépido sacerdote há mais de 30 anos, sou conhecedor de seu empenho em salvaguardar as belezas arquitetônicas não só da nossa Catedral, já em trabalhos de restauração, como da Igreja de Santana, cujo vicariato exerceu por muitos anos. Quero formular-lhe aqui meus sinceros votos de pleno restabelecimento, para que suas obras vo.ltem ao ritmo que ele sempre lhes soube emprestar. João Malato". Eu transcrevi estes dizeres no Livro de Tombo pág. 37, do ano de 1985.
Anos antes eu o encontrei quando fui celebrar a Missa em Ação de Graças pelo restabelecimento de D. Julieta, esposa do vice-governador Agostinho Monteiro. Ele se reportou ao meu artigo "Advertências a um Paulo". Paulo Maranhão pediu-lhe que escrevesse algo contra mim. Ele não o atendeu. Disse-lhe que não havia motivo para isso.
Meu leitor, este artigo eu o escrevo para homenagear o jornalista Malato. Quando relatei tal escolha ao cônego Ápio Campos, foi esta a sua reação: "Se eu tivesse sido escolhido como tu foste, eu teria escolhido por patrono João Malato". Na verdade, o homem deve ser coerente com suas idéias. Mesmo discordando, é edificante se ver a coerência. Eis, então, o porquê de eu ter escolhido seu nome para meu patrono. Quero continuar a ser coerente comigo mesmo: minha coerência é pesquisar a verdade...
Fiquei comovido com a escolha, principalmente pela unanimidade. Na verdade o que faço no campo jornalístico é aplicar o princípio do Papa Paulo VI, quando escreveu sua Encíclica "Inter Mirifica", afirmando que "o leitor tem o direito de ser bem informado".
Pelo ofício, eu poderia escolher para patrono o nome de um jornalista falecido, com exclusão dos mencionados na lista anexa.
Eu comecei a ler a lista e, ao terminar a leitura, logo me veio à lembrança o nome do jornalista João Malato.
Minhas primeiras ligações com João Malato tiveram início a quando da entrada de seu filho no Seminário. Todos os meses, ele pontualmente ia pagar a mensalidade. Conversávamos.
Ao chegar à igreja de Santana, onde permaneci durante 26 anos, polemicamos repetidas vezes pelo jornal "A Folha do Norte" e, mais tarde, em O LIBERAL.
Sempre admirei o estilo desse homem, estilo escoreito, impecável no frasear, exuberante e forte, contundente e sobretudo coerente aos seus princípios. "Cada cabeça, uma sentença". Seremos julgados um dia não pela cabeça dos outros, mas pela nossa cabeça. Neste aspecto, nos identificamos. No seminário eu fora ortodoxo rígido. Seminarista com batina e sempre com batina. Eu não os aceitava nem de guarda pó, nas horas do verão. Copiava D. Mário Vilas Boas, que só permitia batinas pretas nas horas quente do verão.
Depois convenci-me que a dignidade sacerdotal não poderia depender de vestes, mas do "caráter indelével" impresso no sacerdote no dia da ordenação. Em Santana, graças ao Pe. João Belizário Comaru, consegui alargar minhas idéias. Passei a ser olhado como "da linha de frente da Igreja". Chamaram-me padre progressista. Fui o primeiro em Belém a introduzir conjunto musical na Igreja, Os Beatos, corruptela de Beatles, fizeram furor naquela época. Ninguém os superava. Eles executaram a Missa Natalícia do maestro italiano Giombini com adaptação minha. As apresentações causavam reações e um dos maiores protestos partiu de João Malato, que, certa madrugada, acordou D. Alberto Gaudêncio Ramos para protestar contra meu comportamento.
João Malato era lido porque sabia escrever. Outra contundência dele contra mim foi quando escrevi o artigo "Devemos matar a deus". Nem ele e nem D. Alberto perceberam que deus estava escrito com letra minúscula.
Eu chegava da Europa. Em Belém ainda não era conhecida a Teologia da morte de deus que fora gerada pela Teologia da Dessacralizaçaoo. D. Alberto, não obstante ser homem lido, logo mandou-me cartão lamentando o escrito.
Ora, se o próprio Arcebispo reclamou do artigo, imaginem um jornalista leigo. Hoje se lê com sorriso o zelo antigo pela ortodoxia doutrinária.
Como a criatura poderia matar o Deus verdadeiro? O Deus de Javeh? O deus a ser morto fora o "formalismo religioso" que usurpara o lugar do verdadeiro Deus. Os Evangelhos relatam o Senhor Jesus vilipendiando o formalismo farisaico.
Pois bem, estas lembranças todas são para dizer do meu respeito pela coerência do jornalista com as suas idéias. Transferido que fui para a Catedral, seis meses depois acidentei - me gravemente, caindo de quase 5 metros de altura. Fiquei todo quebrado. Nem sentar-me podia. Só depois de meses comecei a celebrar, em cadeira de rodas.
Nessa agonia toda, certa manhã eu li em O LIBERAL do dia 21 de agosto de 1985 o seguinte: "Penalizou-me saber que o Revdo. Padre Nelson Soares, zeloso Cura da Sé e meu valente opositor no terreno das idéias, tenha sofrido um grave acidente no interior daquela Casa de Oração, o que lhe ocasionou algumas fraturas. Privando com o intrépido sacerdote há mais de 30 anos, sou conhecedor de seu empenho em salvaguardar as belezas arquitetônicas não só da nossa Catedral, já em trabalhos de restauração, como da Igreja de Santana, cujo vicariato exerceu por muitos anos. Quero formular-lhe aqui meus sinceros votos de pleno restabelecimento, para que suas obras vo.ltem ao ritmo que ele sempre lhes soube emprestar. João Malato". Eu transcrevi estes dizeres no Livro de Tombo pág. 37, do ano de 1985.
Anos antes eu o encontrei quando fui celebrar a Missa em Ação de Graças pelo restabelecimento de D. Julieta, esposa do vice-governador Agostinho Monteiro. Ele se reportou ao meu artigo "Advertências a um Paulo". Paulo Maranhão pediu-lhe que escrevesse algo contra mim. Ele não o atendeu. Disse-lhe que não havia motivo para isso.
Meu leitor, este artigo eu o escrevo para homenagear o jornalista Malato. Quando relatei tal escolha ao cônego Ápio Campos, foi esta a sua reação: "Se eu tivesse sido escolhido como tu foste, eu teria escolhido por patrono João Malato". Na verdade, o homem deve ser coerente com suas idéias. Mesmo discordando, é edificante se ver a coerência. Eis, então, o porquê de eu ter escolhido seu nome para meu patrono. Quero continuar a ser coerente comigo mesmo: minha coerência é pesquisar a verdade...
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Pequeno histórico de Sant'Ana
Cônego Nelson Brandão Soares (Monsenhor) sucedeu como pároco o Cônego honorário Manuel Andrade, vulgarmente conhecido como Padre Neto. Nasceu no dia 24 de Abril de 1923 em Timbiras - Maranhão. Chegou criança (cinco anos) em Belém. Seus primeiros estudos foram em Grupos Escolares: José Veríssimo e Barão do Rio Branco.
O Arcebispo D. Antônio de Almeida Lustosa o recebeu no Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição no dia 5 de julho de 1937. Seus estudos eclesiásticos foram em Belém. D. Mário de Miranda Villas Boas o ordenou sacerdote no dia 23 de dezembro de 1950, sábado das têmporas do Natal e o último dia do Ano Santo. Antes e no mesmo ano, recebeu as Ordens Maiores e com atraso, porque por duas vezes e por motivo de saúde teve que interromper os estudos filosóficos e teológicos A primeira provisão que recebeu foi a de vigário cooperador do Revdo. Cônego José Maria Azevedo, então Cura da Sé. Em 1952 D. Mário o nomeou secretário particular e chanceler do Arcebispado, acumulando o cargo de Ecônomo e Prefeito de Estudos no Seminário.
Como capelão celebrava pela manhã no Hospital da Ordem Terceira. Ano seguinte, foi nomeado Prefeito de Disciplina do Seminário Maior. Sucedeu Monsenhor Faustino Brito como professor da língua vernácula e organista que fora desde seminarista, neste ano, lhe foi conferido o título de Regens chori da Schola Chantorum.
No ano de 1953 como Presidente da Pastoral Catequética, organizou a Comunhão geral das crianças por ocasião do VI Congresso Eucarístico Nacional. Dez mil crianças receberam a Primeira Eucaristia. Árduo foi providenciar-se para os neo-comungantes o desjejum, conforme exigência canônica da época, o transporte e hospedagem para crianças que chegavam de trem, barcos, pau de arara etc. Seu antecessor o Cônego Manuel Andrade, fez gravar na laje do presbitério da igreja, o invulgar acontecimento nacional.
Com a chegada de D. Alberto Ramos, aconteceram sérias modificações e então o Cônego recebeu transferência para Sant’Ana, tomando posse como Pároco no dia 31 de agosto de 1958. Todo seminário esteve presente. Presidiu as cerimônias Monsenhor Milton Corrêa Pereira, Vigário Geral in spiritualibus. Ele faleceu em Manaus como Arcebispo Metropolitano no dia 23 de maio de 1984.
Ao chegar em Sant’Ana, no domingo seguinte em todas as missas, disse da intenção de residir na igreja. Solicitou donativos e utensílios domésticos para a residência paroquial. Na segunda-feira, começaram chegar as ofertas, causando-lhe forte admiração. Os freqüentadores de Sant’Ana sempre foram generosos e isto perdurou durante toda sua gestão.
Em entrevista à Província do Pará, falou da necessidade urgente de uma grande reforma na igreja. A campanha foi lançada e todo o comércio de Belém a aderiu. Teve início a construção da residência paroquial que se localizou onde funcionava a antiga Escola Paroquial, fundada pelo então pároco Monsenhor Domingos Dias Maltez. Localizava-se em cima da sacristia. Constava de uma sala de estar climatizada, quatro quartos, corredor bem largo que funcionava como refeitório, cozinha e sanitários. As divisórias foram feitas de material leve (eucatex) para não sobrecarregar o estuque da sacristia e poder ser facilmente removido. O Dr. Milton Monte aproveitou exíguo terreno do lado esquerdo da igreja e assim a residência foi ampliada. Nela vários bispos e sacerdotes foram hospedados
No lado oposto, à rua Manuel Barata, preparou-se grande salão para recepções. As tábuas do assoalho (50 cm de largura) estavam apodrecidas e foram substituídas por acapú e pau-amarelo.
O senador Milton Trindade acompanhava o Cônego nas visitas às casas comerciais e só assim, foi possível restaurar-se de imediato a rede elétrica. A Importadora de Ferragens financiou o trabalho fornecendo o material. Recuperou-se a cúpula e foram completados os vidros dos janelões. Isto fez resolver o gravíssimo problema dos pombos que causavam mal-estar aos fiéis, pois os sujavam durante as cerimônias. O Cosmorama financiou o material, mas também ofertou grande parte deles. Em seguida, partiu-se para o telhado. Substituíram-se os vigamentos e ripas. Interessante notar que, algumas delas, eram de pau-rosa. Na época da construção da igreja, havia madeira em abundância. O telhado dos prédios antigos sempre foi o grande problema.
No dia 24 de dezembro de 1958, Vigília do Santo Natal processou-se a reinauguração. Muitos fiéis se portaram na rua. Com a igreja quase às escuras, tendo somente as cinco lâmpadas acesas penduradas, ouviu-se o balancear dos sinos. O Cônego neste instante convidou a esposa do eletricista para acionar as chaves do painel elétrico. A igreja feéricamente se iluminou. Houve incontidas palmas e quase gritos de admiração. Logo subiram ao altar os acólitos que foram cinqüenta crianças, cada uma levando suas vestes para serem abençoadas. Eles no altar as vestiram diante dos fiéis. O coral de Sant’Ana executou músicas de seu repertório a três e quatro vozes. O seminarista Hugo Rocha, da tribuna, iniciou o coro falado que foi preparado pela senhorita Maria de Belém Menezes, irmã do Monsenhor Geraldo Menezes que foi batizado em Sant’Ana. O Cônego oficiou as celebrações. Com esta inauguração, continuaram-se os trabalhos que perduraram até o fim de sua gestão. Em 26 anos de permanência em Sant’Ana, a igreja foi sempre assistida por pedreiros, carpinteiros, eletricistas e pintores.
Cônego Nelson com freqüência dizia: “Eu tive muita sorte. Tudo me foi favorável” e citava o período post conciliar, a Revolução de 1964 e a generosidade dos fiéis. O povo gosta de novidades e elas começavam a acontecer v.g, a reforma litúrgica, Missa em português, simplificação das cerimônias.
Acentue-se o forte clima aterrador causado pela famigerada Revolução 1964 ou como querem alguns, pelo Golpe Militar que fez mil desatinos se considerados forem os Direitos Humanos. Os padres não foram poupados. Eram tachados de comunistas. Acadêmicos passaram a ser olhados como subversivos. A igreja deveria enclausurar-se nas sacristias. Este o tom revolucionário…
Em Sant’Ana o Pe. Diomar foi preso e só obteve licença para celebrar Missas. D. Alberto acovardou-se e disse certa vez ao clero reunido: “Vocês não sabem o que poderá fazer uma revolução...”. Muitas reuniões de jovens acadêmicos foram realizadas à noite na sacristia. Difícil relatar-se detalhadamente o que aconteceu. O Boletim Arquidiocesano começou a ser redigido em Sant’Ana sob a responsabilidade do Grêmio Pio XII; foi farto em fotografias e no noticiário, focalizando detalhadamente a prisão dos dois padres franceses.
Vale o destaque das presenças de Monsenhor Milton Corrêa Pereira como Vigário Geral e do senador Milton Trindade que a todos dizia ser o Cônego “o seu irmão mais velho”. Eles não só foram os braços fortes naquela gestão, mas salvaram o Cônego de vexames. Também D. Eurico Krautler, Bispo do Xingu, muito orientou contra a fúria militar.
Quanto ao lado econômico, nada se fazia em Sant’Ana sem a aprovação do senador. Ele abriu as portas do jornal A Província do Pará que crescia a olhos vistos, enquanto o tradicional concorrente A Folha do Norte definhava. Todos os meios da comunicação social projetaram Sant’Ana, tanto assim que a nata cultural de Belém freqüentava a Igreja. Governador, prefeito, reitor da universidade, advogados, médicos e gente de destaque.
Eclodiu no Seminário de Belém uma grande crise, quase ele foi fechado. Vários alunos (filósofos) ao sair do seminário correram para Sant’Ana. Eles, tendo cultura e formação religiosa, revigoraram a paróquia na música sacra, na liturgia e deram novo impulso ao Grêmio Pio XII. Foram antigos alunos do Cônego. Pedro Braga com a gremista Filomena sua futura esposa, formaram a equipe para o jornal da paróquia “O Povo”. Alberto Cabral e Ana se responsabilizaram pelo “Boletim Arquidiocesano”, outros sustentaram os naipes masculinos (tenores e baixos), enquanto as senhoritas Lúcia e Matilde lideraram os sopranos e contraltos.
Atrás do altar Vesus Populo ficava o coral ladeado pelo grande órgão que tinha sido transportado do coro. O órgão colocado em cima da porta principal da Igreja, relembra a fase decadente da música sacra que só terminou com a publicação do motu proprio do Papa São Pio X. Repito: O lugar litúrgico do órgão e do coral é junto do altar. É de lamentar que fizeram voltar o instrumento para o fundo da igreja para ser ninho de cupins. Néscios quando se arvoram a reformar igrejas, fazem barbaridades. Mutilam a liturgia e rasgam a história eclesiástica. Domus mea domus orationis est que significa “a minha casa é casa de oração” e não museu. É o Cristo quem centraliza o templo e não o artista.
O órgão foi inaugurado no dia 29 de junho de 1962 por D Alberto Gaudêncio Ramos e transportado para o presbitério no dia 29 de junho de 1982, todo carcomido de punilhas e cupins. Quase totalmente perdido. A campanha para a inauguração foi árdua. Por ocasião do pagamento da última parcela o então senador Milton Trindade acompanhado do Cônego dirigiram-se à Fábrica Palmeira. O senhor Antônio Marques, Presidente da sociedade, os recebeu cordialmente. Ao ouvir o relato, preencheu de imediato o cheque e assim o pagamento foi feito.
A esta altura dos acontecimentos, vale considerar-se que o território de Sant’Ana é o menor dentre todos os das demais paróquias da Arquidiocese. Está localizado no coração do comércio e por isso é diminuta a zona residencial.
O Cônego então resolveu partir para trabalhos sociais na zona do interior do Estado. Adquiriu na cidade de Santa Izabel do Pará a chácara para realização de acantonamentos. Lá, várias equipes atuaram. A Revda. irmã Rosa, salesiana, se responsabilizou pela catequese, as senhoras amigas da paróquia ministravam aos sábados aulas de culinária, pinturas, corte e costura, confeitos de doce, datilografia e demais prendas domésticas. Uma vez por ano (primeiro domingo de outubro) era realizada grande quermesse. Chegou-se a vender cinco mil consumações. Foi iniciada a criação de aves e suínos. Os ovos eram comercializados juntamente com perus na igreja. Luciléia era equipada de um tudo e se auto financiava, o que vale a dizer não era pesada a igreja e até ajudava a paróquia. A notícia correu mundo a fora. Até os jornais em Brasília anunciaram o feito
O outro centro comunitário se localizava no Itaquí, corrente do Apeú, município de Castanhal. Chamava-se Oleana. Foram os meninos do grupo dos acólitos que escolheram o nome.
Liderava o movimento a senhorita Nize Soares, irmã do Cônego e funcionária do Ministério da Saúde. Ela fundou o Clube das Mães. O grupo cursilhista Santo Agostinho (doze casais) ficou responsável pelo comando médico mensal e pela farmácia. Conseguiram, uma enfermeira na Secretaria Estadual de Saúde. O primeiro comando médico foi feito ao relento, debaixo das árvores. Com a edificação de um grande barracão foi fundada a escolinha D. Dina Amaral, esposa do senhor Braz Amaral, doador do terreno, conseguido por D. Milton Pereira, bispo auxiliar que a esta altura residia em Castanhal. Oitenta crianças recebiam aulas até a quarta série. As duas professoras eram remuneradas pela Secretaria Estadual de Educação. Sua diretora era a professora Zenóbia Soares
Um grupo de acadêmicos de agronomia orientava os trabalhadores de roça e o plantio de hortaliças. Alguns colonos não tinham motor e levavam suas mandiocas para Oleana e lá preparavam a farinha. Também levavam arroz com casca para serem beneficiados no maquinário comprado pela paróquia, graças à verba adquirida pela Sudam, através do Dr. Hugo Rocha, então Procurador Geral da autarquia. Impressionava a todos o trabalho de prendas domésticas, as danças das crianças e o recitativo. O Natal antecipado em Oleana era sempre no domingo Gaudete. Em um dos discursos, um roceiro afirmou com entusiasmo: “A chegada dos senhores em Oleana para nós é comparada ao descobrimento do Brasil”. No dia da despedida do Cônego, vários caboclos saiam correndo dos caminhos da mata, alguns chorando, para se despedir.
Outro marco histórico foi a compra do terreno onde hoje se encontra o estacionamento de carros. De início a proprietária não o quis vender, mas quando adoeceu, estando em São Paulo, de lá determinou à sua irmã que o vendesse à Paróquia de Sant’Ana. Na ocasião, o Cônego deveria viajar a Roma, para seus estudos de Sociologia Pastoral, mas as equipes funcionaram a contento e todos os pagamentos foram feitos sem atraso.
Agora e por justiça vale citar-se os nomes dos grandes benfeitores, para edificações dos pósteros. Foram eles: Milton Trindade, Maurício Coelho de Souza, Amiraldo Nunes. Jorge Colares, Jorge Chaves, Antônio e Joaquim Alves, João Pedro Amador, Antônio e Benjamim Marques, Jaú, o camiseiro, Rômulo Maiorana, Alberto Constante, Plácido Ramos, proprietários da Casa Paz e os da Casa Guerra, Drª Olga Paz de Andrade, Cândida Proença, Lacy e Praxedes, João e Carmem Arias, Matilde Dulcetti, Said Xerfan, Alacid Nunes, Antônio Venturieri, Antônio Velho, senhoritas Nize, Carmélia, Lygia, Ester, Zenóbia e Liege, Coronel Jarbas Passarinho, Nicolas Constantinides, D. Adélia, D. Rosa Lopes, D. Teresinha, D. Dolores Godoy, D. Celina Coelho, D. Maria de Lourdes Rocha, D. Beatriz Carriço, Sr. Tufi e D. Aidee Santos, Giorgio Falângola, Alfredo Gomes, Hugo Rocha, Dr. Aldebaro Klautau, Dr. Manuel Reis, os doze casais do Grupo Cursilhista Santo Agostinho, Coral de Sant Ana, Filhas de Maria, Apostolado da Oração, Senhoras Amigas, General Ferreira Coelho que foi sacramentado no leito de morte pelo Cônego.
Esta pleaide de benfeitores ajudou não só financeiramente a Paróquia, mas lhe deu total apoio nas horas sombrias e difíceis.
Para terminar, Sant’Ana foi um sonho que durou vinte e seis anos, mas houve o despertar. Se o sonho não tivesse terminado não se teria avançado e outras realizações não teriam acontecido. Louve-se o indormido e atual pároco, Pe Antônio Beltrão, tão querido e estimado por seus paroquianos. No mundo tudo acontece e tudo termina. Por este tudo, Aleluia! ou Deus seja louvado
O Arcebispo D. Antônio de Almeida Lustosa o recebeu no Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição no dia 5 de julho de 1937. Seus estudos eclesiásticos foram em Belém. D. Mário de Miranda Villas Boas o ordenou sacerdote no dia 23 de dezembro de 1950, sábado das têmporas do Natal e o último dia do Ano Santo. Antes e no mesmo ano, recebeu as Ordens Maiores e com atraso, porque por duas vezes e por motivo de saúde teve que interromper os estudos filosóficos e teológicos A primeira provisão que recebeu foi a de vigário cooperador do Revdo. Cônego José Maria Azevedo, então Cura da Sé. Em 1952 D. Mário o nomeou secretário particular e chanceler do Arcebispado, acumulando o cargo de Ecônomo e Prefeito de Estudos no Seminário.
Como capelão celebrava pela manhã no Hospital da Ordem Terceira. Ano seguinte, foi nomeado Prefeito de Disciplina do Seminário Maior. Sucedeu Monsenhor Faustino Brito como professor da língua vernácula e organista que fora desde seminarista, neste ano, lhe foi conferido o título de Regens chori da Schola Chantorum.
No ano de 1953 como Presidente da Pastoral Catequética, organizou a Comunhão geral das crianças por ocasião do VI Congresso Eucarístico Nacional. Dez mil crianças receberam a Primeira Eucaristia. Árduo foi providenciar-se para os neo-comungantes o desjejum, conforme exigência canônica da época, o transporte e hospedagem para crianças que chegavam de trem, barcos, pau de arara etc. Seu antecessor o Cônego Manuel Andrade, fez gravar na laje do presbitério da igreja, o invulgar acontecimento nacional.
Com a chegada de D. Alberto Ramos, aconteceram sérias modificações e então o Cônego recebeu transferência para Sant’Ana, tomando posse como Pároco no dia 31 de agosto de 1958. Todo seminário esteve presente. Presidiu as cerimônias Monsenhor Milton Corrêa Pereira, Vigário Geral in spiritualibus. Ele faleceu em Manaus como Arcebispo Metropolitano no dia 23 de maio de 1984.
Ao chegar em Sant’Ana, no domingo seguinte em todas as missas, disse da intenção de residir na igreja. Solicitou donativos e utensílios domésticos para a residência paroquial. Na segunda-feira, começaram chegar as ofertas, causando-lhe forte admiração. Os freqüentadores de Sant’Ana sempre foram generosos e isto perdurou durante toda sua gestão.
Em entrevista à Província do Pará, falou da necessidade urgente de uma grande reforma na igreja. A campanha foi lançada e todo o comércio de Belém a aderiu. Teve início a construção da residência paroquial que se localizou onde funcionava a antiga Escola Paroquial, fundada pelo então pároco Monsenhor Domingos Dias Maltez. Localizava-se em cima da sacristia. Constava de uma sala de estar climatizada, quatro quartos, corredor bem largo que funcionava como refeitório, cozinha e sanitários. As divisórias foram feitas de material leve (eucatex) para não sobrecarregar o estuque da sacristia e poder ser facilmente removido. O Dr. Milton Monte aproveitou exíguo terreno do lado esquerdo da igreja e assim a residência foi ampliada. Nela vários bispos e sacerdotes foram hospedados
No lado oposto, à rua Manuel Barata, preparou-se grande salão para recepções. As tábuas do assoalho (50 cm de largura) estavam apodrecidas e foram substituídas por acapú e pau-amarelo.
O senador Milton Trindade acompanhava o Cônego nas visitas às casas comerciais e só assim, foi possível restaurar-se de imediato a rede elétrica. A Importadora de Ferragens financiou o trabalho fornecendo o material. Recuperou-se a cúpula e foram completados os vidros dos janelões. Isto fez resolver o gravíssimo problema dos pombos que causavam mal-estar aos fiéis, pois os sujavam durante as cerimônias. O Cosmorama financiou o material, mas também ofertou grande parte deles. Em seguida, partiu-se para o telhado. Substituíram-se os vigamentos e ripas. Interessante notar que, algumas delas, eram de pau-rosa. Na época da construção da igreja, havia madeira em abundância. O telhado dos prédios antigos sempre foi o grande problema.
No dia 24 de dezembro de 1958, Vigília do Santo Natal processou-se a reinauguração. Muitos fiéis se portaram na rua. Com a igreja quase às escuras, tendo somente as cinco lâmpadas acesas penduradas, ouviu-se o balancear dos sinos. O Cônego neste instante convidou a esposa do eletricista para acionar as chaves do painel elétrico. A igreja feéricamente se iluminou. Houve incontidas palmas e quase gritos de admiração. Logo subiram ao altar os acólitos que foram cinqüenta crianças, cada uma levando suas vestes para serem abençoadas. Eles no altar as vestiram diante dos fiéis. O coral de Sant’Ana executou músicas de seu repertório a três e quatro vozes. O seminarista Hugo Rocha, da tribuna, iniciou o coro falado que foi preparado pela senhorita Maria de Belém Menezes, irmã do Monsenhor Geraldo Menezes que foi batizado em Sant’Ana. O Cônego oficiou as celebrações. Com esta inauguração, continuaram-se os trabalhos que perduraram até o fim de sua gestão. Em 26 anos de permanência em Sant’Ana, a igreja foi sempre assistida por pedreiros, carpinteiros, eletricistas e pintores.
Cônego Nelson com freqüência dizia: “Eu tive muita sorte. Tudo me foi favorável” e citava o período post conciliar, a Revolução de 1964 e a generosidade dos fiéis. O povo gosta de novidades e elas começavam a acontecer v.g, a reforma litúrgica, Missa em português, simplificação das cerimônias.
Acentue-se o forte clima aterrador causado pela famigerada Revolução 1964 ou como querem alguns, pelo Golpe Militar que fez mil desatinos se considerados forem os Direitos Humanos. Os padres não foram poupados. Eram tachados de comunistas. Acadêmicos passaram a ser olhados como subversivos. A igreja deveria enclausurar-se nas sacristias. Este o tom revolucionário…
Em Sant’Ana o Pe. Diomar foi preso e só obteve licença para celebrar Missas. D. Alberto acovardou-se e disse certa vez ao clero reunido: “Vocês não sabem o que poderá fazer uma revolução...”. Muitas reuniões de jovens acadêmicos foram realizadas à noite na sacristia. Difícil relatar-se detalhadamente o que aconteceu. O Boletim Arquidiocesano começou a ser redigido em Sant’Ana sob a responsabilidade do Grêmio Pio XII; foi farto em fotografias e no noticiário, focalizando detalhadamente a prisão dos dois padres franceses.
Vale o destaque das presenças de Monsenhor Milton Corrêa Pereira como Vigário Geral e do senador Milton Trindade que a todos dizia ser o Cônego “o seu irmão mais velho”. Eles não só foram os braços fortes naquela gestão, mas salvaram o Cônego de vexames. Também D. Eurico Krautler, Bispo do Xingu, muito orientou contra a fúria militar.
Quanto ao lado econômico, nada se fazia em Sant’Ana sem a aprovação do senador. Ele abriu as portas do jornal A Província do Pará que crescia a olhos vistos, enquanto o tradicional concorrente A Folha do Norte definhava. Todos os meios da comunicação social projetaram Sant’Ana, tanto assim que a nata cultural de Belém freqüentava a Igreja. Governador, prefeito, reitor da universidade, advogados, médicos e gente de destaque.
Eclodiu no Seminário de Belém uma grande crise, quase ele foi fechado. Vários alunos (filósofos) ao sair do seminário correram para Sant’Ana. Eles, tendo cultura e formação religiosa, revigoraram a paróquia na música sacra, na liturgia e deram novo impulso ao Grêmio Pio XII. Foram antigos alunos do Cônego. Pedro Braga com a gremista Filomena sua futura esposa, formaram a equipe para o jornal da paróquia “O Povo”. Alberto Cabral e Ana se responsabilizaram pelo “Boletim Arquidiocesano”, outros sustentaram os naipes masculinos (tenores e baixos), enquanto as senhoritas Lúcia e Matilde lideraram os sopranos e contraltos.
Atrás do altar Vesus Populo ficava o coral ladeado pelo grande órgão que tinha sido transportado do coro. O órgão colocado em cima da porta principal da Igreja, relembra a fase decadente da música sacra que só terminou com a publicação do motu proprio do Papa São Pio X. Repito: O lugar litúrgico do órgão e do coral é junto do altar. É de lamentar que fizeram voltar o instrumento para o fundo da igreja para ser ninho de cupins. Néscios quando se arvoram a reformar igrejas, fazem barbaridades. Mutilam a liturgia e rasgam a história eclesiástica. Domus mea domus orationis est que significa “a minha casa é casa de oração” e não museu. É o Cristo quem centraliza o templo e não o artista.
O órgão foi inaugurado no dia 29 de junho de 1962 por D Alberto Gaudêncio Ramos e transportado para o presbitério no dia 29 de junho de 1982, todo carcomido de punilhas e cupins. Quase totalmente perdido. A campanha para a inauguração foi árdua. Por ocasião do pagamento da última parcela o então senador Milton Trindade acompanhado do Cônego dirigiram-se à Fábrica Palmeira. O senhor Antônio Marques, Presidente da sociedade, os recebeu cordialmente. Ao ouvir o relato, preencheu de imediato o cheque e assim o pagamento foi feito.
A esta altura dos acontecimentos, vale considerar-se que o território de Sant’Ana é o menor dentre todos os das demais paróquias da Arquidiocese. Está localizado no coração do comércio e por isso é diminuta a zona residencial.
O Cônego então resolveu partir para trabalhos sociais na zona do interior do Estado. Adquiriu na cidade de Santa Izabel do Pará a chácara para realização de acantonamentos. Lá, várias equipes atuaram. A Revda. irmã Rosa, salesiana, se responsabilizou pela catequese, as senhoras amigas da paróquia ministravam aos sábados aulas de culinária, pinturas, corte e costura, confeitos de doce, datilografia e demais prendas domésticas. Uma vez por ano (primeiro domingo de outubro) era realizada grande quermesse. Chegou-se a vender cinco mil consumações. Foi iniciada a criação de aves e suínos. Os ovos eram comercializados juntamente com perus na igreja. Luciléia era equipada de um tudo e se auto financiava, o que vale a dizer não era pesada a igreja e até ajudava a paróquia. A notícia correu mundo a fora. Até os jornais em Brasília anunciaram o feito
O outro centro comunitário se localizava no Itaquí, corrente do Apeú, município de Castanhal. Chamava-se Oleana. Foram os meninos do grupo dos acólitos que escolheram o nome.
Liderava o movimento a senhorita Nize Soares, irmã do Cônego e funcionária do Ministério da Saúde. Ela fundou o Clube das Mães. O grupo cursilhista Santo Agostinho (doze casais) ficou responsável pelo comando médico mensal e pela farmácia. Conseguiram, uma enfermeira na Secretaria Estadual de Saúde. O primeiro comando médico foi feito ao relento, debaixo das árvores. Com a edificação de um grande barracão foi fundada a escolinha D. Dina Amaral, esposa do senhor Braz Amaral, doador do terreno, conseguido por D. Milton Pereira, bispo auxiliar que a esta altura residia em Castanhal. Oitenta crianças recebiam aulas até a quarta série. As duas professoras eram remuneradas pela Secretaria Estadual de Educação. Sua diretora era a professora Zenóbia Soares
Um grupo de acadêmicos de agronomia orientava os trabalhadores de roça e o plantio de hortaliças. Alguns colonos não tinham motor e levavam suas mandiocas para Oleana e lá preparavam a farinha. Também levavam arroz com casca para serem beneficiados no maquinário comprado pela paróquia, graças à verba adquirida pela Sudam, através do Dr. Hugo Rocha, então Procurador Geral da autarquia. Impressionava a todos o trabalho de prendas domésticas, as danças das crianças e o recitativo. O Natal antecipado em Oleana era sempre no domingo Gaudete. Em um dos discursos, um roceiro afirmou com entusiasmo: “A chegada dos senhores em Oleana para nós é comparada ao descobrimento do Brasil”. No dia da despedida do Cônego, vários caboclos saiam correndo dos caminhos da mata, alguns chorando, para se despedir.
Outro marco histórico foi a compra do terreno onde hoje se encontra o estacionamento de carros. De início a proprietária não o quis vender, mas quando adoeceu, estando em São Paulo, de lá determinou à sua irmã que o vendesse à Paróquia de Sant’Ana. Na ocasião, o Cônego deveria viajar a Roma, para seus estudos de Sociologia Pastoral, mas as equipes funcionaram a contento e todos os pagamentos foram feitos sem atraso.
Agora e por justiça vale citar-se os nomes dos grandes benfeitores, para edificações dos pósteros. Foram eles: Milton Trindade, Maurício Coelho de Souza, Amiraldo Nunes. Jorge Colares, Jorge Chaves, Antônio e Joaquim Alves, João Pedro Amador, Antônio e Benjamim Marques, Jaú, o camiseiro, Rômulo Maiorana, Alberto Constante, Plácido Ramos, proprietários da Casa Paz e os da Casa Guerra, Drª Olga Paz de Andrade, Cândida Proença, Lacy e Praxedes, João e Carmem Arias, Matilde Dulcetti, Said Xerfan, Alacid Nunes, Antônio Venturieri, Antônio Velho, senhoritas Nize, Carmélia, Lygia, Ester, Zenóbia e Liege, Coronel Jarbas Passarinho, Nicolas Constantinides, D. Adélia, D. Rosa Lopes, D. Teresinha, D. Dolores Godoy, D. Celina Coelho, D. Maria de Lourdes Rocha, D. Beatriz Carriço, Sr. Tufi e D. Aidee Santos, Giorgio Falângola, Alfredo Gomes, Hugo Rocha, Dr. Aldebaro Klautau, Dr. Manuel Reis, os doze casais do Grupo Cursilhista Santo Agostinho, Coral de Sant Ana, Filhas de Maria, Apostolado da Oração, Senhoras Amigas, General Ferreira Coelho que foi sacramentado no leito de morte pelo Cônego.
Esta pleaide de benfeitores ajudou não só financeiramente a Paróquia, mas lhe deu total apoio nas horas sombrias e difíceis.
Para terminar, Sant’Ana foi um sonho que durou vinte e seis anos, mas houve o despertar. Se o sonho não tivesse terminado não se teria avançado e outras realizações não teriam acontecido. Louve-se o indormido e atual pároco, Pe Antônio Beltrão, tão querido e estimado por seus paroquianos. No mundo tudo acontece e tudo termina. Por este tudo, Aleluia! ou Deus seja louvado
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Mons. Nelson Soares aos cinco anos de idade (1928)