segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Um leilão gaúcho



Escrevi o artigo abaixo no ano de 1994 ao iniciar a Campanha para a restauração do Grande Órgão da Catedral. O inicio foi tímido... Eu, todos os dias fazia apelo em minha coluna “A Palavra de Padre” publicada no jornal “A Província Do Pará”. O revdo. Pe. Luciano Bambrilla da Paróquia de Nazaré, certa vez disse-me: “Mude de disco; você só escreve sobre Órgão.” Eu refutei: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e furou mesmo. A campanha foi repetida sim, mas O Grande Órgão está aí, altaneiro na Catedral para grandeza dos paraenses. A campanha foi vitoriosa. A inauguração aconteceu dois anos depois, no ano de 1996, dia dedicado ao Sagrado Coração de Jesus.
 Eis o que eu escrevi logo no início: Foi no Rio Grande do Sul, em noite enluarada, que eu assisti leilão televisionado de gado eqüino. Tratava-se de uma linda égua, faceira e polida. O leiloeiro não se cansava de propagá-la. Bonito animal. Eu jamais havia assistido coisa semelhante mesmo porque, leilões de gado vacum ou eqüino, não interessam sacerdotes.
 A técnica do leiloeiro gritava um, dois, em cadência ritmada de semifinal a provocar lances outros e seguidos. Finalmente alguém a arrematou ao valor de R$ 750.000,00 (setecentos e cinqüenta mil reais). Eu fiquei abismado enquanto os presentes elogiavam a compra, pois entendiam de éguas.
 Apresento agora outro exemplo diferente; um jurista procurou outro jurista levando lista solicitando auxilio. Esta a resposta: volte na próxima semana.Ele voltou e nada. Na terceira semana, o jurista abriu a carteira e ofereceu R$ 5,00 (cinco reais). O primeiro jurista não recebeu a doação dizendo-lhe Com esta, nem vais encher o pneu do teu carro, pois eles cobram seis. Amigo, o órgão embarcará para a França em containeres. Dever-se-ão importar técnicos para o desmonte, com passagens e frete (ida e volta). O órgão requer especialização notória.
 Outro exemplo foi o do visitante que afirmara dizendo do revdo. Pastor Firmino: “Daqui há anos, o Brasil será um pais protestante”. Eu não posso afirmar se isto foi verdade, pois me fundamento unicamente na informação. No entanto, eu concordo com o Reverendo Pastor. Inegavelmente, os evangélicos são generosos e por isso resolvem rápido os problemas do culto. Eu já pensei em pedir licença ao Senhor Arcebispo para deles aprender a técnica de pedir. Fico apreensivo porque o nosso Grande Órgão poderá desabar lá de cima. Seria uma calamidade. Em Belém existem católicos de posse, mas eles dificilmente vão às igrejas e quando nelas entram, ficam distantes.
Voltando ao assunto da égua. Eu não critico o comprador. Até o elogio. Ele entende muito bem de raça de égua. Eu lamento sim é porque na cidade de Belém, até agora, poucos são os que concretamente valorizaram o Órgão da Sé, o maior Cavaille Coll da America Latina. É necessário se divulgar a preciosidade... Nem uma pessoa valoriza o desconhecido.

Os sinos da Sé II



O sino maior da Sé trincou ao ser balanceado para a Missa de Ação de Graças pela vitoria nas urnas como Prefeito Municipal de Belém o dileto amigo Said Xerfan. Espantei-me com o pressagio que depois se concretizou. Xerfan renunciou para candidatar-se governador do Estado na eleição seguinte. Perdeu. Muitos afirmaram que houve fraude, o que acontecia freqüente na contagem “voto a voto”. Eu não sei, só sei que o acontecimento funesto me afetou. O então SPHAN não permitiu que houvesse refundição, pois os sinos perderiam a identidade. Sobre isto eu já escrevi.
 Antes de lançar a campanha, eu pesquisei e muito, sobre sinos, consultei especialistas e até o Senhor Cardeal Dom Eugênio Sales, Arcebispo do Rio de Janeiro. Foi S. Emma. quem me indicou a Fundição Angeli. Fiz descer da torre todos eles, pois alguns tinham os cabeçotes apodrecidos. A descida foi fartamente noticiada e eu guardo cópia do que foi publicado.
O SPHAN por sua vez convocou de Brasília técnico, que ao chegar à Belém, logo no dia seguinte acompanhado do Superintendente regional e do Arcebispo foram à Catedral, Eu os recebi e os introduzi na minha sala mostrando-lhes peças de alfaias, pedindo ao técnico que selecionasse as originais das cópias. O referido técnico se “embananou todo”. Não perdi tempo e logo comecei a falar quando o Arcebispo pediu que eu ouvisse o técnico. Então virei - me a Dom Alberto: Excia., aqui estou nomeado por V. Excia. que neste momento poderá  anular a nomeação. Ele silenciou. Não lhes dei tempo, pois a esta altura  já  me havia certificado  que o  visitante não era técnico em sinos e sim como confessou depois, ser  técnico de soldar cascos de navio. Então eu falei pausadamente: Doutor, as ondas marítimas são muito diferentes das ondas sonoras... Não havendo clima, o encontro foi encerrado e ao saírem ele, o pseudo-técnico, voltou-se, bateu no meu ombro dizendo: Gostei da sua argumentação. Eu os deixei sozinhos... Aproveito o momento para afirmar em “alto e a bom som” que as repartições governamentais estão saturadas de políticos aproveitadores. Os terceirizados contratados não entendem de igrejas, de suas necessidades, de cânones e de liturgia. Tufam o peito arrotando autoridade, ameaçando de prisão como a mim fizeram várias vezes e projetando babilônias... Como prosseguiu a novela? Em uma madrugada, bem tranqüila, a porta central do templo se abriu e os sinos embarcaram diretamente à São Paulo. Viajaram todos embrulhados  nas peças  de fazendas compradas pela Catedral. Lá chegando, foram logo trabalhadas sem  alterações.  Inscrições e datas se conservaram.
Agora para terminar: Uma semana depois do embarque, sem eu esperar vi Dom Alberto e o Superintendente à porta da sala do expediente paroquial. Ao cumprimentar-lhes falou o Arcebispo: “O Dr. Superintendente quer visitar os sinos”. Os sinos á esta altura já haviam embarcado com a ordem do Arcebispo que só colocou uma condição: não lhe criar problemas. Não perdi a calma. Falei forte: O que? Ouvindo o que já ouvira antes continuei: Ora bolas! Eu tenho mais o que fazer. Virei às costas e saí rápido. Não sei dizer qual a reação dos dois.
Á hora do jantar, rumei ao Arcebispado para desculpar-me. Dom Alberto embora tímido, sempre teve uma cabeça privilegiada, falou-me: Você se saiu muito bem. Você não tem porque se desculpar.
    Meu leitor, escrevi este relato para dizer o que pessoas erradas fazem ao ocupar o lugar de competentes. O SPHAN ou o IPHAN como hoje é conhecido poderá ser muito útil ao Brasil e ao universal mundo cultural se entre eles  houvesse um mínimo de sensatez


Os sinos da Sé


A campanha para a refundição dos sinos da Sé, dentre todas, foi a mais agitada. O SPHAN fez de tudo para que ela não acontecesse. Dom Alberto Ramos, o antigo Arcebispo disse-me que o pedido de auxilio, feito ao Banco do Brasil, estava na mesa do diretor geral do banco ou superintendente (não sei ao certo o cargo).
O SPHAN embargou o pedido dizendo que, se os sinos fossem refundidos eles perderiam a identidade. Os argumentos foram tolos e grotescos. Eu então publique: Todos aqueles que desconhecem o sentido do termo identidade, não tem cultura. O delegado da cultura não conhece o termo identidade. Logo, o delegado da cultura não tem cultura.
Prova: ele disse pelo rádio que o refundir sinos, faz perder a identidade. Isto raia pelo absurdo. Então o delegado da cultura bateu e unha. A Unha batida do delegado da cultura foi extraída e nasceu outra. A unha nova do delegado da cultura não é e unha original, logo, a nova unha do delgado da cultura é um absurdo.
O delegado da cultura cortou o cabelo. A lógica do delegado da cultura diz que o novo cabelo do delegado da cultura é um absurdo, porque não é mais o cabelo original.
A lógica do delegado da cultura vai se estendendo. O delegado da cultura nasceu pequeno e tenro. O delegado pequenino foi crescendo, mas o alongamento do delegado da cultura é um absurdo porque ele deixou de ser o original. O original foi restaurado pelo Divino Artista, Deus, nosso Senhor. Na lógica do delegado da cultura, Deus cometeu um absurdo, porque fez crescer o delegado da cultura e não conservou o original para ser colocado num museu.
Conclusão: o Delegado da cultura não é o delgado da cultura, por que não é o original. Que diabo é então o delegado da cultura? Na verdade, nem o diabo sabe o que venha a ser o famigerado delegado da cultura.
O diabo tentou o delegado da cultura, para fazer miséria, mas como delgado da cultura não é o delegado da cultura, porque não é o original, ele, o diabo, deixou de tentar o delegado da cultura, porque o delgado não tem cultura e sem cultura, ele não pode ocupar o cargo de delegado da cultura.
Se o delgado da cultura não tem cultura, por que então ele ocupa o lugar do verdadeiro delegado da cultura? Só resta se conclamar o clero de Belém, os bispos do Estado e o povo cristão a fazer pedido ao Ministro da Cultura para mandar sim, um verdadeiro Delegado que tenha cultura. Afinal de contas, são os sinos que estão em jogo.
Mas deixa isto para lá. Quando um sino trinca, ele perde o timbre, ele se torna um sino morto. Um não sino. Sino morto não funciona. Deixar sino morto em museu não é deixar o sino original. Remendos também desfiguram o original, maculam a verdadeira identidade do sino que deixou de ser original.
“É somente isto que eu acho interessante na disputa sobre os sinos”. Foi o comentário do jornal “A Voz de Nazaré”. O comentário foi fraco, porque nivela os absurdos do delegado da cultura com a sensatez ou o acertado pensar.
Eis o epílogo: os sinos foram refundidos e estão nas torres, convocando os fiéis para o culto. É esta a função dos sinos nas torres das igrejas. Breve relatarei como os sinos da Catedral embarcaram à São Paulo para serem refundidos. O embarque propiciou outro comentário novelesco. Vale ser lido.

O site da Catedral


Catedral de Belém

Acaba de ser projetado o site da Catedral (catedraldebelem.com). É um lindo passeio onde realizações acontecidas desde o início são projetadas. Artistas inúmeros nela trabalharam e gente humilde como trabalhadores braçais, escravos e índios. Eles levantaram paredes de pedra e cal, paredes estas de quase três metros de largura.  A visita leva a quase êxtase, sobretudo quando o visitante considera a fé daqueles que se foram. Este é um autêntico passeio que satisfaz o visitante, mesmo acatólico. A arte é universal e a espiritualidade faz superar toda contingência humana e por isso, não deverá ser profanada.  Parabéns ao antigo Arcebispo D. Orani João Temspesta, que em tempo salvou a casa de Deus. Parabéns à então governadora Ana Júlia Carepa que deu apoio integral à restauração séria. Parabéns ao padre José Gonçalo que soube superar indelicadezas e ignorância de fracos temperamentais, parabéns ao Advaldo pelo grandioso visual chegado a nós e às demais equipes da Sé, pelo zelo inconteste bem visível
Felizmente não foram projetados os vazios criados pela insensatez. Cito o ambulatório para carentes, o gabinete dentário, a biblioteca, o museu, a residência paroquial, com seus equipados kits nets, o segundo refeitório transmudado em aposento do pároco para dificultar a circulação interna do templo. Os destruidores deram a impressão de desconhecer o que venha a ser programa de necessidades, conhecido por acadêmicos iniciantes de engenharia e arquitetura. A necessidade antecede a arte e só depois surge a forma ideal para satisfazer o humano.
Também não vi o antigo quadro de Santa Maria de Belém, que se encontrava no refeitório do Arcebispado, junto a outro muito grande, o da Ceia do Senhor. Lembro-me de que esta primeira relíquia, eu a contra-gosto entreguei ao SPHAN por ordem do então Arcebispo,  o pseudo-herói das demolições. A pretensão de destruir o ossuário e a capela das almas, inaugurados na minha gestão não se concretizou. Praza a Deus que os atuais e futuros líderes da Arquidiocese, nunca mais repitam o infantilismo ou a ingenuidade de entregar a mãos espúrias, o pouco que ainda resta do patrimônio da Arquidiocese de Belém

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Michelangelo











Michelangelo; Auto-retrato


Michelangelo nasceu no dia 6 de março de 1475 em Caprese, Casentino – Itália. Foi o segundo filho entre cinco irmãos. Em 1481 perdeu a mãe, acontecimento que marcou sua personalidade, tanto assim que nas esculturas de Madonas, ele projetava a fisionomia materna envolvida no mistério da morte.
Em 1492 Lourenço, o magnífico, o acolheu em seu palácio onde teve oportunidade de se relacionar como humanistas vários, chegando até a corte dos Médici. Neste seu início, somente dois de seus trabalhos são conservados. A Madona della Scala e A Batalha dos Centauros, temas cristãos e pagãos em dualismo significativo.
Em 1495, depois de estudos de anatomia feitos no mosteiros Del’Spirito, foi hóspede em Roma do Cardeal Riario. Em 1498 Jacopo Galle o procurou á mando do cardeal Lagraulas para dar inicio às obras da Pietá que se encontra na Basílica de São Pedro. Criterioso desde a juventude foi a Carrara escolher o material. Tinha ele 23 anos. O nome “pietá” na arte, se prende ao momento da retirada do Corpo do Senhor, morto na cruz e colocado nos braços da mãe aflita, como aceitação da vontade divina.
A estátua foi esculpida em formato de pirâmide e a Virgem foi projetada em volta de um largo manto, cheio de dobras, conforme tradição gótica, tendo no colo o corpo do Senhor, seu Divino Filho quase tornado uma criança.
Aqueles que reclamaram ser muito jovem a face da mãe, ele respondia; “ a castidade e a pureza não estão sujeitas às leis do tempo”. A mão esquerda da Virgem segura o corpo do Senhor para ressaltar a sua dor.
Michelangelo esculpiu várias outras estátuas “pietá”, mas esta foi a única que ele terminou. Quando estive  em Florença – Itália, visitei outra sua “pietá”, na Igreja de Santa Maria Del Fiore. A virgem parece fazer esforço para receber o corpo de Jesus que lhe está sendo entregue por José de Arimatéia. A fisionomia de José de Arimatéia, projeta o rosto do próprio Michelangelo.
Quanto à pietá de São Pedro, no dia da inauguração, o artista se misturou como o povo que não o conhecia e notou que todos se admiravam com a perfeição do trabalho. Naquela mesma noite, sobre a faixa que estava envolvendo o corpo da Virgem escreveu: “Michelangelo Buonarroti, Fiorentino faciebat”. Na academia de Florença, encontra-se a estátua de Davi quando jovem e em São Pedro in Vincolli – Roma junto á Universidade Gregoriana está a de Moisés. Ao terminar o trabalho desta estátua ele disse: Fala, Moisés”.
Michelangelo foi um gênio. Um superdotado. Os gênios são exceções da natureza. Eles continuam presentes nos trabalhos que deixaram... parecem imortais.

A Temida Realidade



Estas linhas eu as escrevo à propósito do meu primeiro ano de Hospital na Beneficente Portuguesa. O relato aconteceu na década de cinqüenta, gestão Sant’Ana.
Chamado fui para atender doente. O hospital situava-se no antigo Largo da Pólvora, hoje Praça da República. Era uma tarde calorenta, como são as tardes equatoriais de Belém, antes da chuva. Saí à pé, envergando minha batina preta  e de chapéu, conforme uso da época.
Quando a porta se abriu, deparei-me com uma senhora de cor, corpulenta. Ela estava envolvida em um lençol alvíssimo, muito limpo, mas daquele corpo, exalava insuportável odor. Senti-me mal, mas estava ali para sacramentar uma enferma em estado terminal. Ela estava lúcida. Observei o Ritual, sentindo o “ônus”  sacerdotal. O mal-estar continuou, sobretudo às refeições. Lembrava-me do escritor quinhentista, padre Manuel Bernardes ao escrever sobre carne. Relatou o desespero do animal ao pressentir o abate e a morte. A defesa é instintiva. Todo vivente tem instintos.
Agora atenção, meu leitor: o padre não se ordena para si, mas para atender e socorrer enfermos, carentes e necessitados. Disse Jesus: “Os de saúde não necessitam de médico”. O padre é médico de almas. O atendimento do médico não é fácil. Eu que por alguns instantes quase não suportei a exalação, nem me lembrei de que a paciente sentia a decomposição do próprio corpo. A realidade é trágica, temida e inexplicável. A natureza, que generosamente forneceu ao corpo o alimento, parece que, de repente se nega a ele e “dá um basta”. O corpo inconscientemente começa a definhar É o fastio. O Alimento não passa pela garganta. Sem alimento o corpo não sresiste e morre.
A morte é um enigma. Ninguém quer morrer. Todos a temem. A tragicidade aumenta porque ninguém fica esquecido.
Segue a reflexão final. O tempo é rápido, é fugaz. Mergulhados no tempo vive-se como se eterno ele o fosse. No silêncio inevitável desse instante, turbulências poderão acontecer. E elas são de ordem social, econômica, familiar e até espirituais. Narram que o nobre Mazzarino convulsamente se agarrava aos pertences e ás jóias  dizendo que tudo iria deixar. Dom frei Vital, ao escarrar disse;” Foi veneno mesmo”.  E o colega Dirceu agarrado aos pais gritava: “Não quero morrer!” e assim morreu.
Meu leitor, no silêncio inevitável que antecede a morte, o cristão deve entregar-se nas mãos de Deus e com espírito de fé, receberá a graça de bem morrer

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Padre Diocesano

Reporto-me ao dia do padre, recém celebrado e lembro-me das memórias do meu passado: “A História é a mestra da vida”.

Eis a reflexão sobre o padre diocesano. Ele não teve fundador. Nasceu com a Igreja. Os fundadores determinam específicas espiritualidades. Dom Gregório Varmeling que foi bispo de Nova Friburgo assim falou: “Nós não vivemos da espiritualidade monacal” e depois acrescentou: “o padre diocesano no momento da imposição das mãos e da Oração Consagratória, passa por uma transformação quase ontológica no sentido de projetar o Cristo no mundo e no tempo. Ele assume a missão de salvar a humanidade em todos os momentos, alegres e difíceis, daí repetir São Paulo aos Filipenses: “Mihi vivere Christus” (1,21)

Ao incardinar-se na Igreja Diocesana, tornou-se co-responsável na diocese que o acolheu. O ritual é claro: “uma porção do povo de Deus confiada ao Bispo e ao seu Presbitério”.

Para o Religioso, o celibato é ato supremo de renuncia pessoal. Para o padre diocesano é o sinal mais completo do dom total de si mesmo em favor do povo de Deus. A regra ou lei diocesana é a da caridade apostólica, isto é, o serviço paroquial. Nenhuma ascese a poderá substituir. O padre diocesano é lançado no mundo para fecundá-lo, e fermentá-lo. Reporto-me agora ao inesquecível Dom Mário, quando falava sobre a massa, a massa levedada, sobre o fermento no laicato e na Ação Católica...

Voltando ao início, é preciso frisar que o vínculo diocesano é muito sério. O termo jurídico chama-se incardinação. Nem o bispo tem esse vínculo, pois está a disposição da Santa Sé. Dom Santino Coutinho fora nomeado bispo de São Luís – Maranhão. Antes da posse, transferido fora para bispo do Pará e logo depois nomeado Arcebispo de Belém. Foi o segundo Arcebispo.

Para divagar, cito Bethoven na Missa Solene que parece ter duvidado da missão salvífica do sacerdote. Em seu estro musical repetiu muitas vezes a palavra latina “caro – carne” até terminar decididamente no “factum est” ou “fez-se carne” reportando-se o Cristo Sumo e Eterno Sacerdote.

O padre terá que fazer o que Cristo fez “exinanivit semetipsum” ou “esvaziar-se de si mesmo”.

É preciso restituir-se ao padre diocesano o sentido de sua plenitude ontológica. Acrescento o norte ao epílogo: profunda vida interior a manifestar-se no comportamento sacerdotal, na liturgia, nas pregações com base escriturística e na música. Eu nunca ensaiei um número sem antes o ter executado ao órgão dezenas de vezes para sentir a frase musical do compositor. Nunca me impressionaram as palmas dos ouvintes e sim quando os via lacrimejar. A música reforça o “verbum Dei”.

Agora, o final lembrete. A mística diocesana deverá ser o roteiro certo no caminhar diário.

O Equilíbrio

A personalidade integral é de imediato notada pelos reflexólogos, porque eles se preocupam em diagnosticar o equilíbrio no humano. O equilíbrio se processa pela presença de forças iguais e opostas a se defrontarem. A flor é bela, porque na simplicidade de sua veste está em equilíbrio. O amor (dar e receber) se planifica no equilíbrio. Saúde é equilíbrio.

O corpo humano sente o equilíbrio bilhões de vezes em cada órgão, em cada sistema, nas correntes sanguíneas e linfáticas, nos neurônios cerebrais, enfim, em todo o corpo. Quando ele não se processa satisfatoriamente todo o ser se desequilibra e soam alertas ou advertências: é a febre, é a dor, a indisposição gástrica, o desmaio que sintomatizam o que se chama doença. Tais sintomas se vão agravando e poderão levar a estresses ou a neuroses. O neurótico ao sentir-se desajustado procura desvencilhar-se do problema, não assim o teimoso, o psicótico. Este não se reconhece doente, pois se sente ajustado ao meio social e isto é perigoso. A advertência geral é a de que cada pessoa poderá sentir-se envolvida pelas emboscadas psicopatas...

Vale e muito pois, se refletir sobre o desequilíbrio orgânico ou sobre as doenças. Ela conduz a noção de desapropriação de si mesmo. O doente perde o domínio do próprio corpo que lhe parece escapar por influencias outras. A sociedade distanciada o isola e ele pede compaixão, carinho, amor, dedicação, com humildade.

A impressão que tenho é a de que a medicina materialista parece-me ultrapassada. Eu sinto isto aqui na Beneficente Portuguesa onde dou presença. Varias vezes, nas insubstituíveis visitas aos doentes, médicos me têm dado precedência, sobretudo nos casos terminais.

Não tenho tido problemas com acatólicos. Eles me acolhem, peço, no entanto aos acompanhantes que chamem seus pastores e ministros para atenderem o paciente. O enfermo necessita de paz, o Senhor Jesus veio trazer a paz.

Para mim enfermeiros (as), médicos (as), ministros de culto são verdadeiros anjos tutelares que se debruçam ante o leito do enfermo.

Impressiona aos doentes a visita que faço. Pedem que volte. O doente gosta de ouvir palavras objetivas e seguras. Para terminar, considero o desequilíbrio orgânico uma excepcional oportunidade à Pastoral Cristã. O olhar do enfermo impressiona e às vezes parece distante, então eu o abençoo, colocando as mãos sobre a cabeça e o contemplo na prece que faço em voz alta. Vejo olhos marejados... a lagrima comprida na face da criança ou a sentida no olhar do enfermo brilha. Lindo o brilho das lágrimas. Ele faz lembrar a luz de Deus.

Uma “pitada” adulta

Está evidente: cada lobo cerebral é sede de atividades a repercutir no lado oposto e o entrelaçamento comunicativo, gera o almejado equilíbrio no orgânico. Deus na sua infinita sabedoria utiliza o visível para dar lições fáceis à criatura que teima em se prender à extremismos... virtus in médio ou a virtude está no meio. Saber ouvir, que maravilha!...

Se a néscios a afirmação parece banal, a experiência constata que as prospecções esquerdizantes foram geradas na direita, enquanto aquelas partiram da esquerda. É a reversibilidade entre tese e antítese que provoca a harmonia no somático e no social. A constatação infelizmente não iluminou mentes obtusas daí comportamentos asnáticos, porque amuados. Falei, acabou-se. O que disse está dito. E não volto atrás. Almas gigantes têm rasgos planetários.

Rompam-se as barreiras desatentas ou compulsivas que a insensatez diminuirá. Todos, indistintamente deverão portar seu tijolinho para fazer crescer a humanidade. Ao final as criaturas refulgirão e também o todo social.

N.B: Graças à Sua Excelência Dom Alberto Taveira, diariamente às 09h 00min e aos domingos às 07h 00min celebro a Santa Missa na Capela do Hospital da Beneficente Portuguesa. Aos sábados, às 09h 30min atendo confissões.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Comentário inadiável

Ao termino da leitura de “Altar – Sumiço” publicada pelo Repórter 70 no passado domingo, 26.VI., lembrei-me: “ a mediocridade do hoje, faz profanar o ontem e atrapalhar o amanhã”. Foi o que aconteceu em Sant’Ana. Detenha-se o leitor e perceberá o desrespeito à História e á Igreja de Senhor Jesus.
O Padre Antônio Beltrão teve que retirar-se da Casa Paroquial. Ela não foi restaurada e sim demolida. No século passado funcionou como Escola Paroquial dirigida por Monsenhor Domingos Dias Maltez. O altar sagrado por Dom Rêgo Maia era o da Basílica de Nazaré, segundo o Padre Affonso Di Giorgio. Ele desapareceu. Demoliram a Gruta de Lourdes, “fac símile” da de Massabielle na França. Onde está o altar privilegiado pelo Papa São Pio X? O pavimento de mármore (Carrara), trazido por Dom Antônio de Macedo Costa, onde o colocaram? Fecharam portas dificultando a atividade paroquial. Tudo foi feito por terceirizados. Eles disseram que obedeciam ordens do IPHAN (sic !?...). Quanto as diatribes que propositalmente eu as vou omitir para não ferir susceptibilidades, geraram verdadeira década de chumbo. Oxalá, a corda não venha a se rebentar do lado mais fraco deixando airosos os santarrões... O caso de Sant’Ana é caso de polícia...
Meu leitor, a História é dinâmica e não paralisante. São as sucessivas gerações que a montam. A técnica presente, julgo eu, deve fazer realçar os séculos que se foram. Cito um só exemplo: a feérica iluminação da Catedral de Belém. Ela à noite é linda e impressiona. A iluminação proclama ser casa de oração. Domus mea, Domus orationis est. Quando ela foi construída, não havia iluminação elétrica na cidade. A atual iluminação não profana o passado, faz sim destacar as antigas gerações. Referindo-me à Catedral, apresento o reverso: destruíram seis apartamentos, a Biblioteca e também o iniciado Museu. O Atual quarto do pároco dificulta a circulação interna do templo. Parece que os pseudo restauradores nunca ouviram falar em programa de necessidades...
Agora um destaque: no dia 10 de março de 2010 o Reverendo Padre Antônio Beltrão fez reclamação séria à Procuradoria da Republica do Estado do Pará sobre a situação caótica do Templo. Não foi ouvido. Vale reler-se o Repórter 70: “A obra continua inacabada – Custou a bagatela de sete milhões – não caiu bem aos olhos do Instituto que condenou parte dos serviços.”
Meu caro leitor, só o IPHAN poderá dar solução fácil ao acontecido, pois o feito foi proclamado como obra do IPHAN. Os bispos não querem problemas. Alguns deles até proíbem os padres de falar. Os cristãos, principalmente aqueles que se julgam renomados, cultuam pessoas, poucos se lhes dá a Instituição. Resultado: Diocese com mil dificuldades e às vezes espoliada.
Escrevo assim porque entre os eclesiásticos desta Arquidiocese sou o mais antigo. Entrei no seminário no de 1937. Eu amo profundamente a Arquidiocese de Belém e a defendo. Sou testemunha viva. Ela culturalmente me alimentou e eu sorvi do seu leite.
Oxalá de Brasília venha gente competente, sensível, humilde e sensata. O futuro deverá julgar o IPHAN não como destruidor e sim como grande conservador do patrimônio cultural e histórico, não só dessa esquecida, mas de todo Brasil.
N.B: Graças a Sua Excelência Dom Alberto Taveira, diariamente às 09:00 horas e aos domingos ás 07:00 horas celebro a Santa Missa na Capela do Hospital da Beneficente Portuguesa. Aos sábado, às 9h30min atendo confissões

sábado, 10 de julho de 2010

Petrus eni.





Pedro está aqui dentro. Foi encontrado porque escolhido. Pedro esteve em Belém e foi no dia 8 de julho de 1980. Um acontecimento invulgar. Desde de a fundação da cidade, esta a primeira vez que um Papa a visitou. Convido o leitor a deter-se na exegese escriturística: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.
Em aramaico o verbete kefa é traduzido por pedra e também Pedro. Então foi assim que o Cristo falou: “Tu és kefa, e sobre esta kefa que és tu edificarei a minha Igreja". O leitor sabe que todo idioma tem suas nuances e expressões características. Em Português, kefa é susbstantivo próprio e comum.
Agora vale defrontar-se com a arqueóloga Margherita Guarducci. Foi ela quem nas grutas do Vaticano, encontrou a frase Petrus eni. Fundamentada na epigrafia grega, em seu livro, confirmou a autenticidade da relíquia e também a tradição “in verso capite”. O desenho do padre jesuíta Ferrua contribuiu para o achado.
Conselheiros do Papa Pio XII, desaconselharam pesquisas, pois elas poderiam ir de encontro à tradição. Assim repostou o Papa: “os cristãos não deverão ter medo da verdade”. A descoberta foi anunciada e também a autenticidade da tradição. Sim, Cristo escolheu a Pedro. São Pedro foi o primeiro Papa. Os Papas são sucessores de Pedro e reconhecidos como Cristo visível na Igreja. É o timoneiro fiel a guiar sua nave em mares tempestuosos e nas bonanças.
Quanto a visita do Pontífice, assim resumirei: ela foi apoteótica. O paraense sabe receber visitantes. O visitante era ilustre em todos os sentidos. Ao pisar o solo paraense, entre aclamações, dirigiu-se logo ao Leprosário. Manteve contato direto com os enfermos. Depois almoçou e repousou no Seminário Arquidiocesano, repleto de freiras. Os seminaristas foram liberados. Celebrou Missa à rua 1º de Dezembro, sem vegetação, sob sol inclemente equatorial. O Papa se preocupou com o numero avultado de desmaios. Ao declinar do dia, rumou no papa móvel à Catedral. Não parou na Basílica para oscular a imagem original da Virgem de Nazaré. Só na manhã seguinte ele a osculou.
Na Catedral, Monsenhor Faustino Brito a adornou de maneira condigna. Ela ficou repleta de fiéis. E, sobretudo de autoridades. Foi destaque o coral de Sant’Ana com 106 componentes. Outros corais religiosos se uniram a nós. Apresentamos números polifônicos à quatro vozes desiguais. Quando ele entrou no templo, de Oreste Ravanello, foi entoado “tu és Petrus”, alternando o poema de Ápio Campos. Uma só estrofe apresento:

Tu és o Cristo que passa / Tu és o Cristo que vem
Tu és o Cristo que fica / Cristo nasceu em Belém.

Logo de maneira vibrante houve a saudação em tupi guarani: katé, katé, katé – uatauê apé uçu. Ué andira mira katé xa-xa-xa turibú muri xingá.
Foi entoado em polonês o Pod Twa Obrone e em seguida o Haec Dies. À Ave Maria de O. Ravanello o Papa se ajoelhou. De Aloys Kunc p/ 4v.d foi executado o Oremus pro pontifice. As estrofes do Christus Vincit foram em português, latim e em polonês.
Saindo da Catedral, o coral não obteve permissão para entrar no Arcebispado. O Papa saudou o povo de umas das janelas do Arcebispado, quando relâmpagos e trovões riscaram o céu de Belém, completamente escuro.
O Papa tranqüilo e jovial provocou uma risada contagiante e palmas. Depois de agradecer as presenças, disse bem forte: “vou me recolher porque vai ‘chová’”. Aclamações risos fortes e palmas incontidas. Minutos depois caiu uma chuva forte, verdadeiro vendaval... Neste final, vale se destacar o livro publicado pelo então Arcebispo D. Alberto Ramos “Quatro dias com o Papa”. Anos depois, quando em Roma, visitei o Pontíficie, ele abraçando-me disse: “Estive em sua Catedral”. Eu então respondi: “no momento eu era o regens Chori”.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Um comentário 2

Ouvi e vi o edificante entrelaçado ao trágico no televisivo noticiário do dia vinte deste quando, pais entregaram à polícia o filho criminoso de 13 anos. Horrorizou-se o telespectador? Se indiferente, está contaminado na psicopática cidade (sic!). Toda psicopatia é fria, sem fé, incapaz de amar e de se sensibilizar. O psicopata tem consciência do que faz, mas enchafurdou-se no egoísmo. “EGO” é latino e significa “eu”. Quem foi “eu”? Eu, foi a vaca de Júpiter.
Lembro que a psicopatia existiu no passado e no presente. Apresentam Alcibíades, general, orador e estadista grego (450 a.C) como psicopata. O psicopata pode ser criança, jovem, adulto, simpático, atencioso, atraente, qualidades estas para pressionar a presa. Ele se realiza quando faz o outro sofrer, perturba, porque qualquer um poderá ser a próxima vítima. Nem sempre mata. O psicopata tem desconexão nos circuitos cerebrais responsáveis pela emoção. Na ânsia de possuir, não percebe o ilícito.
No sistema carcerário brasileiro não existe um procedimento de diagnóstico para a psicopatia, daí a facilidade de obterem benefícios como o da redução de pena, do regime de prisão semi-aberto, o dos feriados sociais e outros. Se o diagnóstico existisse, o psicopata ficaria mais tempo preso e as reincidências diminuiriam. Assim acontece nos países onde vigora a Escala Hare (PCL). Não é fácil a distinção entre jovens aptos a reeducação e os que são refratários. Estes quando soltos, repetirão o que fizeram. A Dr. A.B os chama de animais, vampiros, parasitas, porque continuamente sugam as presas. Se menores, dizem ter transtornos de conduta – se maiores transtornos de personalidade. Ambos têm impulsividade primitiva. Sabem o que fazem e ainda se divertem. Vale a lembrança daqueles jovens que queimaram o índio que dormia na praça. A predisposição genética e a vulnerabilidade biológica se agravam quando o meio-ambiente não é favorável. Jurunas é tido como bairro violento.
Meu leitor, nunca se deve negociar com o mal. As terapias biológicas até o momento não funcionam na psicoterapia. O psicopata ficando satisfeito nas transgressões, não sente constrangimento, não fica depressivo, nem intranqüilo, não sofre com o mal que praticou. Como então tratar o sofrimento, se ele não existe?
As vítimas e familiares sim, sofrem o terrível e poderão chegar ao quase desespero. Nesse momento eu rezo e sentimento os familiares do policial morto.
Para terminar, passo a palavra aos técnicos, aos juristas, os legisladores, aos moralistas, aos governos e aos que defendem os bilaterais direitos humano. Ajudem-me neste alerta para que novas leis sejam promulgadas e se tenha paz.

sábado, 5 de junho de 2010

Um comentário
Mons. Nelson Soares

É só manusearem-se escritos não distantes para se perceber pseudo-afirmações contra a Bíblia, contra a Igreja e contra os tementes a Deus. Relembro Marx: “Minhas afirmações não foram apriorísticas e sim experimentais. A História não mente”, depois ele alcandorou o Determinismo Histórico. Cito ainda Feuerbach e seus trocadilhos. Dizem: “Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Eu contesto: o homem criou deus a sua imagem e semelhança”...

Mutatis mutandis, hoje, as afirmações são científicas, mas o propósito é o mesmo. Negar-se a Deus como causa de todas as causas e origem de todas as origens. Deus é o Criador. Do nada, do não ser, deu impulso a todas as possíveis existências.

Transcrevo agora as recentes notícias: “os cientistas fazem milagres” – “Deus é contido em um tubo de ensaio” – “foi criado o primeiro ser vivo artificial” – “o homem criou a vida”. Lembro o que o The Economist publicou: “Deus sumiu do quadro e é das mãos do homem nu, com lap top no colo que sai o raio criador da vida”. Dizeres para impressionar se não fossem vazios, ocos, irreais e sofisticados. É terrível dizia Dom Mário: “É terrível o esvaziar-se da palavra”. Na verdade a palavra é som resultante das vibrações das cordas vocais ou golfadas de ar. No entanto, elas transmitem conceitos, recados, mensagens. Recados profundos no dizer dos antigos: “Cristo o recado do Pai para a salvação”. Mas elas também poderão gerar o oposto: ofensas, insegurança, dúvidas, falsidades.
Meu Leitor, nem ontem, nem hoje, nem amanhã e nunca, os laboratórios mais precisos ou os superdotados, poderão insuflar a inércia da matéria dando-lhe vida. O humano tem seu limiar.

As articulistas Laura e Gabriela deram um tento: “Não houve criação artificial da vida, nem a criação da vida artificial”. O cientista Venter e equipe recriaram um genoma existente na natureza. Facilitaram a compreensão do povo com a metáfora: “É como alguém que desmontou um relógio e depois o remontou, instalando o conjunto de peças em um estojo diferente e o mecanismo voltou a funcionar”.

Deus é um mistério. A vida é um mistério. Se houvesse explicação para o mistério ele deixaria de o ser. A foto dos dois cientistas extasiados com a proveta na mão, não provou diferente ciclo vital. O real e total diferente acontecerá no último dia...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Schola Cantorum, canto de Deus

Há dias, jovens da Catedral e de Sant'Ana visitaram-me. Soube que o Revdo. Pe. José Gonçalo quer relembrar a reorganização da Schola Cantorum da Catedral, ocorrida no dia 23 de fevereiro, quatro dias após minha posse como Cura da Sé em 1985. Convidaram-me para a solenidade, segundo eles, a acontecer no dia 1º de maio, sábado - às 19h00.
A Schola Cantorum da Catedral permaneceu emudecida por muito tempo e agora, completa suas bodas de prata. Os 25 anos passaram célere. Resolvi escrever sobre o acontecimento evocando a história e lembrando Dom Alberto Ramos em sua Cronologia da Amazônia a escrever: "Foi ela o primeiro estabelecimento de ensino musical no Pará". Eu acrescento, em toda a Amazônia. Segundo S. Excia, a fundação aconteceu no dia 06 de maio de 1735, quando aqui era Bispo Dom Frei Bartolomeu do Pilar. Ao chegar à novel diocese, organizou o Cabido com as dignidades, conforme códigos vigentes. Nomeou Chantre o Cônego Lourenço Álvares Roxo.
Desde os primórdios as Igrejas organizavam escolas, visando o culto litúrgico. O Papa São Gregório Magno (540? - 604) as reformulou e deu-lhes o nome de Schola Cantorum. Catedrais, Basílicas, Seminários, Mosteiros somente, poderiam usar o título. As Scholas eram formadas por meninos e jovens selecionados pela piedade, pela voz e pendores musicais. Recebiam preparação às ordens menores. Seus mestres se chamavam Prior Scholae, primiseríus, secundiserius, tetius et quartius ou archiparaphonistis.
Vicente Sales em seu livro "A música e o tempo" fez referência a uma solene apresentação de 20 meninos na Catedral, ocorrida no dia 22 de dezembro de 1756. Julgou ter sido ela para oficializar a fundação da Schola. Não deu certeza. Eu prefiro fundamentar-me nos escritos de Dom Alberto Ramos. Após a morte do chantre (09 de abril de 1756) Dom Frei Miguel de Bulhões nomeou chantre Antonio Francisco, Cônego presbítero e irmão de Lourenço Alvares Roxo.
Em 1764 Dom Frei Caetano Brandão nomeou o Cônego diácono Joaquim da Silva, chantre da Catedral. Dois anos depois ele fundou a Schola Cantorum do Seminário. Este bispo, fundador da Santa Casa de Misericórdia do Pará, criou no Seminário a cadeira de canto gregoriano. Ainda foram nomeados os chantres: José da Silva Cunha, Joaquim Pedro de Moraes Bittencourt.
A expulsão pombalina de religiosos e mais tarde a Cabanagem, motivaram o declínio artístico na Catedral, no entanto, vale lembrar as presenças de João Almeida Loureiro, Matias José da Silva e Antonio Conde. Em 1839 foi nomeado chantre o organista português José Nepomuceno de Mendonça, sucedido por Raimundo Severino Matos.
Em 1863 Dom Antonio de Macedo Costa nomeou chantre o Dr. José Kaulfuse, polonês, com o fito de renovar o culto litúrgico na Catedral e no Seminário. Seu primeiro ato foi o de convencer o bispo para adquirir o potente órgão de tubos, tração mecânica. A inauguração aconteceu no dia 9 de setembro de 1882 pelo organista e organeiro Werkamp. É o atual Cavaillé-Coll de 18 toneladas, parado há quase 50 anos e que foi restaurado na França pela firma de Theo Haerpfer, em nossa gestão, mediante vibrante campanha. A quando da inauguração publiquei em "Nova et Vetera" ou "O velho que se tornou novo", a transcrição da ata da inauguração, redigida em 03 vias. Theo Haerpfer conseguiu a cópia de uma delas porque a arquivada na Catedral e a do Arcebispado se extraviaram.
Nesta época, se acentuou o declínio da música sacra em todo o mundo. No dia 22 de novembro de 1903, o Papa São Pio X publicou seu "Motu próprio" sobre música sacra, evidenciando o canto gregoriano. É lido no documento: "A música se torna sacra se ela se aproximar do gregoriano". Muitos ainda hoje não distinguem música sacra de música sagrada...
Nenhum outro bispo depois de D. Antonio de Macedo Costa deu tanta ênfase à música na Igreja. Em 1941 a Schola Cantorum do Seminário, sob a regência do Pe. Cristóvão, salesiano, atingiu o máximo. Executávamos na Catedral que não mais possuía sua Schola. Dom Jaime Câmara deu ênfase ao grupo dos seminaristas maiores, levados ao Arcebispado e nós, os menores, temíamos que ele freasse a Schola. Foi logo transferido ao Rio de Janeiro. Pe. Adriano Tourinho foi quem reorganizou a Schola do Seminário, seguido do Pe. Emílio Serafim, ambos salesianos. A esta altura, vale destacar a notável Schola Cantorum da Basílica de Nazaré, reorganizada pelo Pe. José Lanzi e depois pelo Pe. Paulino Bressan. Pe. Paulino a todos impressionava pela sua vasta cultura, com destaque a musical. Publicou em 1950 "Manual de canto gregoriano" com apresentação do Pe. Guilherme Schubert que lhe fez rasgados e merecidos elogios.
Com a transferência do Pe. Cristovão e do Pe. Delugan, ambos salesianos, Monsenhor Geraldo Menezes assumiu a regência gregoriana e eu a polifônica. Os inúmeros encargos do Monsenhor foram responsáveis pela minha nomeação plena a "Regens chori". Depois de quatro anos adoeci gravemente e tive que interromper os estudos, um ano antes de me ordenar sacerdote. Dois anos depois, voltei ao Seminário, ordenei-me padre por D. Mário de Miranda Vilas Boas e então reassumi os encargos musicais até a transferência para Sant'Ana. Assim terminou a Schola Cantorum do Seminário até o dia de hoje. Um tristeza...
Houve então uma terrível crise no seminário. Muitos seminaristas saíram e vários dos maiores correram a Sant'Ana. O coral fundado por mim se fortaleceu e também o Grêmio Pio XII. O nosso coral funcionou oficialmente na Catedral, a quando da visita do Papa João Paulo II a Belém. Participamos do VI Femaco em São Luis do Maranhão e foram inúmeras nossas apresentações. Transferido que fui para a Catedral, o coral de Sant'Ana espontaneamente me acompanhou. Não tive dificuldade de reorganizar a Schola Cantorum da Catedral.
A fundação da Schola Cantorum da Catedral aconteceu então há 25 anos, pois há 25 anos iniciei meu ministério sacerdotal na Catedral. Meus queridos componentes da Schola: vocês continuam lembrados por mim. Eu escrevi estas notas focalizando a história para que vocês sintam a própria origem e reflitam sobre o mistério da presença da Schola Cantorum na Igreja de Belém. O canto sacro marca nítido o texto escriturístico. Não nego, ao sair da Catedral temi um pouco pela Schola. Foi a dedo que escolhi o Eduardo para continuar o trabalho. Eduardo, tu e todos os componentes da Schola têm uma grande responsabilidade na pastoral musical da Arquidiocese. Mergulhem na tradição e sintam a presença daqueles que os antecederam. Eu tive o cuidado de fazer esta pesquisa, pensando em todos vocês. Não deixem nossa querida Schola fenecer. Zelem também pelo Grande Órgão, o rei dos instrumentos que no culto prostra-se em adoração ao Rei dos reis, dando apoio à Schola Cantorum. Parabéns!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009




Missa na Catedral


Altar do VI Congresso Eucarístico Nacional, ocorrido em 1953 na cidade de Belém
Ordenação no dia 23 de dezembro de 1950, na Catedral de Belém
Mons. Nelson Soares aos cinco anos de idade (1928)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Meu Deus, meu Deus

Aos benévolos leitores lhes digo: Para mim ficou encerrado o assunto Catedral. Fiquei sozinho na luta: "uma andorinha não faz verão". No caso do IPAR e do Arcebispado, li comentários outros. Recebi apoio. Desta vez ninguém. Ao leitor digo: cumpri meu dever. Maranhense de nascimento, sou paraense de coração e de mente, sou paraense por decreto e cidadão de Belém pela Câmara Municipal. Eu me orgulho de ser paraense, e, como sacerdote, defendi o patrimônio desta Igreja particular, respeitando os que me antecederam e zelando pelo que recebi.
No passado, tomaram na marra D. Jerônimo Tomé da Silva na sua Carta Pastoral, datada de 23/04/1892, à página 14, cita o antecessor D. Frei Caetano Brandão, lido no tom. 1, pág. 120, sobre o Hospital da Santa Casa: "Queremos que esta casa fique sujeita à nossa jurisdição e dos nossos sucessores; o que nos pertence por direito, visto ter sido fundada por nossa autoridade e teve a sua primeira origem do nosso zelo e das nossas diligências. Outro sim, ordenamos que a manutenção dos oficiais da referida casa seja por nós e nossos sucessores etc..."
Apesar de tudo, no dia 20/11/1890 o então governador do Estado Dr. Justo
Leite Chermont secularizou a irmandade, ficando o Estado com todos os bens.
Agora leiamos D. Jerônimo Tomé da Silva: "Protestamos contra a secularização da irmandade da Santa Casa de Misericórdia do Pará e declaramos solenemente perante os homens retos, perante os tribunais onde a justiça serve de norma, que o patrimônio da Santa Casa, constitui uma propriedade eclesiástica, resultante de doações de fiéis, legados e esmolas e, portanto, é nulo de pleno direito perante Deus e a consciência qualquer alienação do patrimônio, qualquer transação sobre o mesmo, sem aquiescência do prelado diocesano". A representação foi feita pelo Revmo. Mons. José Gregório Coelho, Vigário Capitular. Por falta de espaço, não irei citar aqui outras apropriações indébitas mascaradas todas de um tal comodato. Quando a Arquidiocese poderá arcar com a infra-estrutura do atual acervo?
No presente, cento e quatorze anos depois também no dia 20, um bispo simploriamente entrega a Catedral para aberrações. Mente não acuada, começaria o trabalho pelo telhado. Tudo o mais viria depois; teimosia tola quis demolir logo a casa do padre. Eu aviso ao leitor: montanha de ferro irá sair do local e levada para onde? As vigas foram trabalhadas pela Micon, graças a generosidade do senhor Luizinho Macedo. Será que elas irão ser vendidas a quilo, como vendida foi o ferro da antiga Caixa D’água, junto da Fábrica Palmeira? Quem vendeu como sucata à Copala foi o senhor Jorge Chaves. Ou será que estas vigas terão outro destino espúrio?...
Não bastou a tomada da Igreja de Santo Alexandre, o Arcebispado de Belém, do Seminário N. Sra. da Conceição, das casas da Ladeira do Castelo e as da rua Pe. Champagnat? Agora a Catedral. Ficará ela em comodato para núcleo da Feliz Lusitânia?
Reflita o leitor: nenhuma notícia foi publicada para ressaltar o culto divino, para atualizar a liturgia, para propiciar ambiente humano ao padre, para cultivar nosso Deus. Todo o anunciado foi para propiciar turismo. O turismo religioso quer adorar a Deus no seu templo e contemplar o sagrado.
Vale considerarem-se as esmolas do povo. Dom Frei Caetano Brandão saía de casa em casa a esmolar: Era recebido com reverência. Assim dizia: "se eu fosse um magnata, um príncipe, um rei, não seria tão bem recebido como fui pelo povo cristão". O gesto deste bispo foi jogado no lixo, como no lixo jogadas foram as ofertas, as esmolas, a generosidade do povo crente.
Lembro-me do Sr. Milton Trindade, superintendente dos Diários Associados e Senador da República, saía comigo para esmolar, lembro-me do Sr. Plácido Ramos, do Sr. Alfredo Gomes, do Sr. Nicolas Constantinidis, do Sr. Alberto Pinheiro, do Sr. Rômulo Maiorana, do Sr. Joaquim Alves e seu irmão, do Sr. Antonio Marques e irmão Benjamin, do Jaú o camiseiro, do Dr. Maurício Coelho de Souza e de seu irmão Dr. Daniel, que foi reitor da Universidade, todos eles contribuíram para o culto. Lembro-me comovido do Sr. Lacyr e esposa, d. Praxedes, de d. Rosa Lopes, de d. Alfreda, de d. Maria de Lourdes, de d. Aide, de d. Carmem, d. Beatriz, almas gigantes que se privaram para atender a Igreja. Toda generosidade e esmolas foram desprezadas. Nunca comprei seixo, areia, barro, porque o Sr. Carlito jamais cobrou um centavo.
Qualifiquei o Dr. Hélio Gueiros e o senhor Marcos Marcelino como arautos do Rei na campanha do órgão. Lembro-me do Dr. Lutfala Bitar, só de uma vez doou 100 sacos de cimento. Quantas vezes lacrimejei ao receber ofertas, algumas pequenas, mas todas generosas. Pois bem, meu leitor, o que foi feito com zelo, caridade e espírito de fé, a insensatez lança fora sem critério, ou melhor, para lucrar divisas e promover vaidades.
Onde estão os juristas católicos desta terra que deveriam dar apoio ao Arcebispo, que acabara de chegar a estas plagas, encontrando tamanho abacaxi sem poder descascá-lo?
Onde estão os engenheiros e arquitetos católicos para gritarem contra tão irreverência? Onde está o povo da Cidade Velha, os paroquianos da Sé, os católicos de
Belém, os sacerdotes diocesanos de Belém? Eu duvido que isto aconteça com os religiosos. Eles defendem seu patrimônio. Parece que os outros da terceira categoria.
Agora dizem: O povo não auxilia como antigamente. Auxiliar igreja para depois aparecer irresponsável e profanar os sacrifícios e as generosidades. Ante o tamanho descalabro afirmo que tudo tem um valor econômico. Os valores não deverão ser jogados fora. Auxiliar templos católicos significa jogar dinheiro no lixo. Onde vamos parar?
Neste momento eu levanto o meu gritante protesto. O telhado da Sé está desgastado sim. Remendem o telhado, mas atendam a funcionalidade do Templo. Quero reafirmar que estes 20 anos passados foram escuros, negros para os templos da Igreja de Belém. O futuro haverá de fazer justiça. Saiba o leitor: Os católicos do séc. XVIII construíram o templo, os católicos do séc. XIX embelezaram o templo. Os católicos do séc. XX terminaram o templo. E os do séc. XXI?


13 de maio de 2006