segunda-feira, 10 de maio de 2010

Schola Cantorum, canto de Deus

Há dias, jovens da Catedral e de Sant'Ana visitaram-me. Soube que o Revdo. Pe. José Gonçalo quer relembrar a reorganização da Schola Cantorum da Catedral, ocorrida no dia 23 de fevereiro, quatro dias após minha posse como Cura da Sé em 1985. Convidaram-me para a solenidade, segundo eles, a acontecer no dia 1º de maio, sábado - às 19h00.
A Schola Cantorum da Catedral permaneceu emudecida por muito tempo e agora, completa suas bodas de prata. Os 25 anos passaram célere. Resolvi escrever sobre o acontecimento evocando a história e lembrando Dom Alberto Ramos em sua Cronologia da Amazônia a escrever: "Foi ela o primeiro estabelecimento de ensino musical no Pará". Eu acrescento, em toda a Amazônia. Segundo S. Excia, a fundação aconteceu no dia 06 de maio de 1735, quando aqui era Bispo Dom Frei Bartolomeu do Pilar. Ao chegar à novel diocese, organizou o Cabido com as dignidades, conforme códigos vigentes. Nomeou Chantre o Cônego Lourenço Álvares Roxo.
Desde os primórdios as Igrejas organizavam escolas, visando o culto litúrgico. O Papa São Gregório Magno (540? - 604) as reformulou e deu-lhes o nome de Schola Cantorum. Catedrais, Basílicas, Seminários, Mosteiros somente, poderiam usar o título. As Scholas eram formadas por meninos e jovens selecionados pela piedade, pela voz e pendores musicais. Recebiam preparação às ordens menores. Seus mestres se chamavam Prior Scholae, primiseríus, secundiserius, tetius et quartius ou archiparaphonistis.
Vicente Sales em seu livro "A música e o tempo" fez referência a uma solene apresentação de 20 meninos na Catedral, ocorrida no dia 22 de dezembro de 1756. Julgou ter sido ela para oficializar a fundação da Schola. Não deu certeza. Eu prefiro fundamentar-me nos escritos de Dom Alberto Ramos. Após a morte do chantre (09 de abril de 1756) Dom Frei Miguel de Bulhões nomeou chantre Antonio Francisco, Cônego presbítero e irmão de Lourenço Alvares Roxo.
Em 1764 Dom Frei Caetano Brandão nomeou o Cônego diácono Joaquim da Silva, chantre da Catedral. Dois anos depois ele fundou a Schola Cantorum do Seminário. Este bispo, fundador da Santa Casa de Misericórdia do Pará, criou no Seminário a cadeira de canto gregoriano. Ainda foram nomeados os chantres: José da Silva Cunha, Joaquim Pedro de Moraes Bittencourt.
A expulsão pombalina de religiosos e mais tarde a Cabanagem, motivaram o declínio artístico na Catedral, no entanto, vale lembrar as presenças de João Almeida Loureiro, Matias José da Silva e Antonio Conde. Em 1839 foi nomeado chantre o organista português José Nepomuceno de Mendonça, sucedido por Raimundo Severino Matos.
Em 1863 Dom Antonio de Macedo Costa nomeou chantre o Dr. José Kaulfuse, polonês, com o fito de renovar o culto litúrgico na Catedral e no Seminário. Seu primeiro ato foi o de convencer o bispo para adquirir o potente órgão de tubos, tração mecânica. A inauguração aconteceu no dia 9 de setembro de 1882 pelo organista e organeiro Werkamp. É o atual Cavaillé-Coll de 18 toneladas, parado há quase 50 anos e que foi restaurado na França pela firma de Theo Haerpfer, em nossa gestão, mediante vibrante campanha. A quando da inauguração publiquei em "Nova et Vetera" ou "O velho que se tornou novo", a transcrição da ata da inauguração, redigida em 03 vias. Theo Haerpfer conseguiu a cópia de uma delas porque a arquivada na Catedral e a do Arcebispado se extraviaram.
Nesta época, se acentuou o declínio da música sacra em todo o mundo. No dia 22 de novembro de 1903, o Papa São Pio X publicou seu "Motu próprio" sobre música sacra, evidenciando o canto gregoriano. É lido no documento: "A música se torna sacra se ela se aproximar do gregoriano". Muitos ainda hoje não distinguem música sacra de música sagrada...
Nenhum outro bispo depois de D. Antonio de Macedo Costa deu tanta ênfase à música na Igreja. Em 1941 a Schola Cantorum do Seminário, sob a regência do Pe. Cristóvão, salesiano, atingiu o máximo. Executávamos na Catedral que não mais possuía sua Schola. Dom Jaime Câmara deu ênfase ao grupo dos seminaristas maiores, levados ao Arcebispado e nós, os menores, temíamos que ele freasse a Schola. Foi logo transferido ao Rio de Janeiro. Pe. Adriano Tourinho foi quem reorganizou a Schola do Seminário, seguido do Pe. Emílio Serafim, ambos salesianos. A esta altura, vale destacar a notável Schola Cantorum da Basílica de Nazaré, reorganizada pelo Pe. José Lanzi e depois pelo Pe. Paulino Bressan. Pe. Paulino a todos impressionava pela sua vasta cultura, com destaque a musical. Publicou em 1950 "Manual de canto gregoriano" com apresentação do Pe. Guilherme Schubert que lhe fez rasgados e merecidos elogios.
Com a transferência do Pe. Cristovão e do Pe. Delugan, ambos salesianos, Monsenhor Geraldo Menezes assumiu a regência gregoriana e eu a polifônica. Os inúmeros encargos do Monsenhor foram responsáveis pela minha nomeação plena a "Regens chori". Depois de quatro anos adoeci gravemente e tive que interromper os estudos, um ano antes de me ordenar sacerdote. Dois anos depois, voltei ao Seminário, ordenei-me padre por D. Mário de Miranda Vilas Boas e então reassumi os encargos musicais até a transferência para Sant'Ana. Assim terminou a Schola Cantorum do Seminário até o dia de hoje. Um tristeza...
Houve então uma terrível crise no seminário. Muitos seminaristas saíram e vários dos maiores correram a Sant'Ana. O coral fundado por mim se fortaleceu e também o Grêmio Pio XII. O nosso coral funcionou oficialmente na Catedral, a quando da visita do Papa João Paulo II a Belém. Participamos do VI Femaco em São Luis do Maranhão e foram inúmeras nossas apresentações. Transferido que fui para a Catedral, o coral de Sant'Ana espontaneamente me acompanhou. Não tive dificuldade de reorganizar a Schola Cantorum da Catedral.
A fundação da Schola Cantorum da Catedral aconteceu então há 25 anos, pois há 25 anos iniciei meu ministério sacerdotal na Catedral. Meus queridos componentes da Schola: vocês continuam lembrados por mim. Eu escrevi estas notas focalizando a história para que vocês sintam a própria origem e reflitam sobre o mistério da presença da Schola Cantorum na Igreja de Belém. O canto sacro marca nítido o texto escriturístico. Não nego, ao sair da Catedral temi um pouco pela Schola. Foi a dedo que escolhi o Eduardo para continuar o trabalho. Eduardo, tu e todos os componentes da Schola têm uma grande responsabilidade na pastoral musical da Arquidiocese. Mergulhem na tradição e sintam a presença daqueles que os antecederam. Eu tive o cuidado de fazer esta pesquisa, pensando em todos vocês. Não deixem nossa querida Schola fenecer. Zelem também pelo Grande Órgão, o rei dos instrumentos que no culto prostra-se em adoração ao Rei dos reis, dando apoio à Schola Cantorum. Parabéns!