sábado, 10 de julho de 2010

Petrus eni.





Pedro está aqui dentro. Foi encontrado porque escolhido. Pedro esteve em Belém e foi no dia 8 de julho de 1980. Um acontecimento invulgar. Desde de a fundação da cidade, esta a primeira vez que um Papa a visitou. Convido o leitor a deter-se na exegese escriturística: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”.
Em aramaico o verbete kefa é traduzido por pedra e também Pedro. Então foi assim que o Cristo falou: “Tu és kefa, e sobre esta kefa que és tu edificarei a minha Igreja". O leitor sabe que todo idioma tem suas nuances e expressões características. Em Português, kefa é susbstantivo próprio e comum.
Agora vale defrontar-se com a arqueóloga Margherita Guarducci. Foi ela quem nas grutas do Vaticano, encontrou a frase Petrus eni. Fundamentada na epigrafia grega, em seu livro, confirmou a autenticidade da relíquia e também a tradição “in verso capite”. O desenho do padre jesuíta Ferrua contribuiu para o achado.
Conselheiros do Papa Pio XII, desaconselharam pesquisas, pois elas poderiam ir de encontro à tradição. Assim repostou o Papa: “os cristãos não deverão ter medo da verdade”. A descoberta foi anunciada e também a autenticidade da tradição. Sim, Cristo escolheu a Pedro. São Pedro foi o primeiro Papa. Os Papas são sucessores de Pedro e reconhecidos como Cristo visível na Igreja. É o timoneiro fiel a guiar sua nave em mares tempestuosos e nas bonanças.
Quanto a visita do Pontífice, assim resumirei: ela foi apoteótica. O paraense sabe receber visitantes. O visitante era ilustre em todos os sentidos. Ao pisar o solo paraense, entre aclamações, dirigiu-se logo ao Leprosário. Manteve contato direto com os enfermos. Depois almoçou e repousou no Seminário Arquidiocesano, repleto de freiras. Os seminaristas foram liberados. Celebrou Missa à rua 1º de Dezembro, sem vegetação, sob sol inclemente equatorial. O Papa se preocupou com o numero avultado de desmaios. Ao declinar do dia, rumou no papa móvel à Catedral. Não parou na Basílica para oscular a imagem original da Virgem de Nazaré. Só na manhã seguinte ele a osculou.
Na Catedral, Monsenhor Faustino Brito a adornou de maneira condigna. Ela ficou repleta de fiéis. E, sobretudo de autoridades. Foi destaque o coral de Sant’Ana com 106 componentes. Outros corais religiosos se uniram a nós. Apresentamos números polifônicos à quatro vozes desiguais. Quando ele entrou no templo, de Oreste Ravanello, foi entoado “tu és Petrus”, alternando o poema de Ápio Campos. Uma só estrofe apresento:

Tu és o Cristo que passa / Tu és o Cristo que vem
Tu és o Cristo que fica / Cristo nasceu em Belém.

Logo de maneira vibrante houve a saudação em tupi guarani: katé, katé, katé – uatauê apé uçu. Ué andira mira katé xa-xa-xa turibú muri xingá.
Foi entoado em polonês o Pod Twa Obrone e em seguida o Haec Dies. À Ave Maria de O. Ravanello o Papa se ajoelhou. De Aloys Kunc p/ 4v.d foi executado o Oremus pro pontifice. As estrofes do Christus Vincit foram em português, latim e em polonês.
Saindo da Catedral, o coral não obteve permissão para entrar no Arcebispado. O Papa saudou o povo de umas das janelas do Arcebispado, quando relâmpagos e trovões riscaram o céu de Belém, completamente escuro.
O Papa tranqüilo e jovial provocou uma risada contagiante e palmas. Depois de agradecer as presenças, disse bem forte: “vou me recolher porque vai ‘chová’”. Aclamações risos fortes e palmas incontidas. Minutos depois caiu uma chuva forte, verdadeiro vendaval... Neste final, vale se destacar o livro publicado pelo então Arcebispo D. Alberto Ramos “Quatro dias com o Papa”. Anos depois, quando em Roma, visitei o Pontíficie, ele abraçando-me disse: “Estive em sua Catedral”. Eu então respondi: “no momento eu era o regens Chori”.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Um comentário 2

Ouvi e vi o edificante entrelaçado ao trágico no televisivo noticiário do dia vinte deste quando, pais entregaram à polícia o filho criminoso de 13 anos. Horrorizou-se o telespectador? Se indiferente, está contaminado na psicopática cidade (sic!). Toda psicopatia é fria, sem fé, incapaz de amar e de se sensibilizar. O psicopata tem consciência do que faz, mas enchafurdou-se no egoísmo. “EGO” é latino e significa “eu”. Quem foi “eu”? Eu, foi a vaca de Júpiter.
Lembro que a psicopatia existiu no passado e no presente. Apresentam Alcibíades, general, orador e estadista grego (450 a.C) como psicopata. O psicopata pode ser criança, jovem, adulto, simpático, atencioso, atraente, qualidades estas para pressionar a presa. Ele se realiza quando faz o outro sofrer, perturba, porque qualquer um poderá ser a próxima vítima. Nem sempre mata. O psicopata tem desconexão nos circuitos cerebrais responsáveis pela emoção. Na ânsia de possuir, não percebe o ilícito.
No sistema carcerário brasileiro não existe um procedimento de diagnóstico para a psicopatia, daí a facilidade de obterem benefícios como o da redução de pena, do regime de prisão semi-aberto, o dos feriados sociais e outros. Se o diagnóstico existisse, o psicopata ficaria mais tempo preso e as reincidências diminuiriam. Assim acontece nos países onde vigora a Escala Hare (PCL). Não é fácil a distinção entre jovens aptos a reeducação e os que são refratários. Estes quando soltos, repetirão o que fizeram. A Dr. A.B os chama de animais, vampiros, parasitas, porque continuamente sugam as presas. Se menores, dizem ter transtornos de conduta – se maiores transtornos de personalidade. Ambos têm impulsividade primitiva. Sabem o que fazem e ainda se divertem. Vale a lembrança daqueles jovens que queimaram o índio que dormia na praça. A predisposição genética e a vulnerabilidade biológica se agravam quando o meio-ambiente não é favorável. Jurunas é tido como bairro violento.
Meu leitor, nunca se deve negociar com o mal. As terapias biológicas até o momento não funcionam na psicoterapia. O psicopata ficando satisfeito nas transgressões, não sente constrangimento, não fica depressivo, nem intranqüilo, não sofre com o mal que praticou. Como então tratar o sofrimento, se ele não existe?
As vítimas e familiares sim, sofrem o terrível e poderão chegar ao quase desespero. Nesse momento eu rezo e sentimento os familiares do policial morto.
Para terminar, passo a palavra aos técnicos, aos juristas, os legisladores, aos moralistas, aos governos e aos que defendem os bilaterais direitos humano. Ajudem-me neste alerta para que novas leis sejam promulgadas e se tenha paz.

sábado, 5 de junho de 2010

Um comentário
Mons. Nelson Soares

É só manusearem-se escritos não distantes para se perceber pseudo-afirmações contra a Bíblia, contra a Igreja e contra os tementes a Deus. Relembro Marx: “Minhas afirmações não foram apriorísticas e sim experimentais. A História não mente”, depois ele alcandorou o Determinismo Histórico. Cito ainda Feuerbach e seus trocadilhos. Dizem: “Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Eu contesto: o homem criou deus a sua imagem e semelhança”...

Mutatis mutandis, hoje, as afirmações são científicas, mas o propósito é o mesmo. Negar-se a Deus como causa de todas as causas e origem de todas as origens. Deus é o Criador. Do nada, do não ser, deu impulso a todas as possíveis existências.

Transcrevo agora as recentes notícias: “os cientistas fazem milagres” – “Deus é contido em um tubo de ensaio” – “foi criado o primeiro ser vivo artificial” – “o homem criou a vida”. Lembro o que o The Economist publicou: “Deus sumiu do quadro e é das mãos do homem nu, com lap top no colo que sai o raio criador da vida”. Dizeres para impressionar se não fossem vazios, ocos, irreais e sofisticados. É terrível dizia Dom Mário: “É terrível o esvaziar-se da palavra”. Na verdade a palavra é som resultante das vibrações das cordas vocais ou golfadas de ar. No entanto, elas transmitem conceitos, recados, mensagens. Recados profundos no dizer dos antigos: “Cristo o recado do Pai para a salvação”. Mas elas também poderão gerar o oposto: ofensas, insegurança, dúvidas, falsidades.
Meu Leitor, nem ontem, nem hoje, nem amanhã e nunca, os laboratórios mais precisos ou os superdotados, poderão insuflar a inércia da matéria dando-lhe vida. O humano tem seu limiar.

As articulistas Laura e Gabriela deram um tento: “Não houve criação artificial da vida, nem a criação da vida artificial”. O cientista Venter e equipe recriaram um genoma existente na natureza. Facilitaram a compreensão do povo com a metáfora: “É como alguém que desmontou um relógio e depois o remontou, instalando o conjunto de peças em um estojo diferente e o mecanismo voltou a funcionar”.

Deus é um mistério. A vida é um mistério. Se houvesse explicação para o mistério ele deixaria de o ser. A foto dos dois cientistas extasiados com a proveta na mão, não provou diferente ciclo vital. O real e total diferente acontecerá no último dia...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Schola Cantorum, canto de Deus

Há dias, jovens da Catedral e de Sant'Ana visitaram-me. Soube que o Revdo. Pe. José Gonçalo quer relembrar a reorganização da Schola Cantorum da Catedral, ocorrida no dia 23 de fevereiro, quatro dias após minha posse como Cura da Sé em 1985. Convidaram-me para a solenidade, segundo eles, a acontecer no dia 1º de maio, sábado - às 19h00.
A Schola Cantorum da Catedral permaneceu emudecida por muito tempo e agora, completa suas bodas de prata. Os 25 anos passaram célere. Resolvi escrever sobre o acontecimento evocando a história e lembrando Dom Alberto Ramos em sua Cronologia da Amazônia a escrever: "Foi ela o primeiro estabelecimento de ensino musical no Pará". Eu acrescento, em toda a Amazônia. Segundo S. Excia, a fundação aconteceu no dia 06 de maio de 1735, quando aqui era Bispo Dom Frei Bartolomeu do Pilar. Ao chegar à novel diocese, organizou o Cabido com as dignidades, conforme códigos vigentes. Nomeou Chantre o Cônego Lourenço Álvares Roxo.
Desde os primórdios as Igrejas organizavam escolas, visando o culto litúrgico. O Papa São Gregório Magno (540? - 604) as reformulou e deu-lhes o nome de Schola Cantorum. Catedrais, Basílicas, Seminários, Mosteiros somente, poderiam usar o título. As Scholas eram formadas por meninos e jovens selecionados pela piedade, pela voz e pendores musicais. Recebiam preparação às ordens menores. Seus mestres se chamavam Prior Scholae, primiseríus, secundiserius, tetius et quartius ou archiparaphonistis.
Vicente Sales em seu livro "A música e o tempo" fez referência a uma solene apresentação de 20 meninos na Catedral, ocorrida no dia 22 de dezembro de 1756. Julgou ter sido ela para oficializar a fundação da Schola. Não deu certeza. Eu prefiro fundamentar-me nos escritos de Dom Alberto Ramos. Após a morte do chantre (09 de abril de 1756) Dom Frei Miguel de Bulhões nomeou chantre Antonio Francisco, Cônego presbítero e irmão de Lourenço Alvares Roxo.
Em 1764 Dom Frei Caetano Brandão nomeou o Cônego diácono Joaquim da Silva, chantre da Catedral. Dois anos depois ele fundou a Schola Cantorum do Seminário. Este bispo, fundador da Santa Casa de Misericórdia do Pará, criou no Seminário a cadeira de canto gregoriano. Ainda foram nomeados os chantres: José da Silva Cunha, Joaquim Pedro de Moraes Bittencourt.
A expulsão pombalina de religiosos e mais tarde a Cabanagem, motivaram o declínio artístico na Catedral, no entanto, vale lembrar as presenças de João Almeida Loureiro, Matias José da Silva e Antonio Conde. Em 1839 foi nomeado chantre o organista português José Nepomuceno de Mendonça, sucedido por Raimundo Severino Matos.
Em 1863 Dom Antonio de Macedo Costa nomeou chantre o Dr. José Kaulfuse, polonês, com o fito de renovar o culto litúrgico na Catedral e no Seminário. Seu primeiro ato foi o de convencer o bispo para adquirir o potente órgão de tubos, tração mecânica. A inauguração aconteceu no dia 9 de setembro de 1882 pelo organista e organeiro Werkamp. É o atual Cavaillé-Coll de 18 toneladas, parado há quase 50 anos e que foi restaurado na França pela firma de Theo Haerpfer, em nossa gestão, mediante vibrante campanha. A quando da inauguração publiquei em "Nova et Vetera" ou "O velho que se tornou novo", a transcrição da ata da inauguração, redigida em 03 vias. Theo Haerpfer conseguiu a cópia de uma delas porque a arquivada na Catedral e a do Arcebispado se extraviaram.
Nesta época, se acentuou o declínio da música sacra em todo o mundo. No dia 22 de novembro de 1903, o Papa São Pio X publicou seu "Motu próprio" sobre música sacra, evidenciando o canto gregoriano. É lido no documento: "A música se torna sacra se ela se aproximar do gregoriano". Muitos ainda hoje não distinguem música sacra de música sagrada...
Nenhum outro bispo depois de D. Antonio de Macedo Costa deu tanta ênfase à música na Igreja. Em 1941 a Schola Cantorum do Seminário, sob a regência do Pe. Cristóvão, salesiano, atingiu o máximo. Executávamos na Catedral que não mais possuía sua Schola. Dom Jaime Câmara deu ênfase ao grupo dos seminaristas maiores, levados ao Arcebispado e nós, os menores, temíamos que ele freasse a Schola. Foi logo transferido ao Rio de Janeiro. Pe. Adriano Tourinho foi quem reorganizou a Schola do Seminário, seguido do Pe. Emílio Serafim, ambos salesianos. A esta altura, vale destacar a notável Schola Cantorum da Basílica de Nazaré, reorganizada pelo Pe. José Lanzi e depois pelo Pe. Paulino Bressan. Pe. Paulino a todos impressionava pela sua vasta cultura, com destaque a musical. Publicou em 1950 "Manual de canto gregoriano" com apresentação do Pe. Guilherme Schubert que lhe fez rasgados e merecidos elogios.
Com a transferência do Pe. Cristovão e do Pe. Delugan, ambos salesianos, Monsenhor Geraldo Menezes assumiu a regência gregoriana e eu a polifônica. Os inúmeros encargos do Monsenhor foram responsáveis pela minha nomeação plena a "Regens chori". Depois de quatro anos adoeci gravemente e tive que interromper os estudos, um ano antes de me ordenar sacerdote. Dois anos depois, voltei ao Seminário, ordenei-me padre por D. Mário de Miranda Vilas Boas e então reassumi os encargos musicais até a transferência para Sant'Ana. Assim terminou a Schola Cantorum do Seminário até o dia de hoje. Um tristeza...
Houve então uma terrível crise no seminário. Muitos seminaristas saíram e vários dos maiores correram a Sant'Ana. O coral fundado por mim se fortaleceu e também o Grêmio Pio XII. O nosso coral funcionou oficialmente na Catedral, a quando da visita do Papa João Paulo II a Belém. Participamos do VI Femaco em São Luis do Maranhão e foram inúmeras nossas apresentações. Transferido que fui para a Catedral, o coral de Sant'Ana espontaneamente me acompanhou. Não tive dificuldade de reorganizar a Schola Cantorum da Catedral.
A fundação da Schola Cantorum da Catedral aconteceu então há 25 anos, pois há 25 anos iniciei meu ministério sacerdotal na Catedral. Meus queridos componentes da Schola: vocês continuam lembrados por mim. Eu escrevi estas notas focalizando a história para que vocês sintam a própria origem e reflitam sobre o mistério da presença da Schola Cantorum na Igreja de Belém. O canto sacro marca nítido o texto escriturístico. Não nego, ao sair da Catedral temi um pouco pela Schola. Foi a dedo que escolhi o Eduardo para continuar o trabalho. Eduardo, tu e todos os componentes da Schola têm uma grande responsabilidade na pastoral musical da Arquidiocese. Mergulhem na tradição e sintam a presença daqueles que os antecederam. Eu tive o cuidado de fazer esta pesquisa, pensando em todos vocês. Não deixem nossa querida Schola fenecer. Zelem também pelo Grande Órgão, o rei dos instrumentos que no culto prostra-se em adoração ao Rei dos reis, dando apoio à Schola Cantorum. Parabéns!